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| NO PRINCÍPIO: COMO INTERPRETAR GÊNESIS 1 Richard M. Davidson |
| “No princípio criou Deus os céus e a Terra.” Gênesis 1:1. Com tal beleza, majestade e simplicidade começa o relato da Criação em Gênesis. Porém, uma análise do capítulo 1 de Gênesis não é tão simples e direta como uma leitura casual do texto bíblico poderia sugerir. A interpretação moderna da cosmogonia (estudo das origens) bíblica em Gênesis 1 é extremamente complicada, dividida entre a interpretação não-literal e a literal. Vamos brevemente descrever sete destas interpretações e avaliar cada uma à luz dos dados bíblicos.
Estudiosos que apoiam uma interpretação não-literal de Gênesis abordam a questão de diferentes modos. Alguns consideram Gênesis 1 como mitologia (1); outros consideram-no poesia (2); alguns tomam-no como teologia (3); ainda outros o consideram como simbolismo. (4) Comum a todas estas interpretações não-literais é a suposição de que o relato em Gênesis não é um relato literal e histórico da Criação.
Aqueles que aceitam literalmente o relato da Criação também diferem em sua abordagem da cosmogonia bíblica de Gênesis 1. Vamos indicar três pontos de vista. Teoria de um intervalo ativo Gênesis 1:3 e os versos seguintes apresentam então o relato
de uma criação posterior na qual Deus restaura o que tinha
sido arruinado. A coluna geológica é usualmente inserida
no período da primeira criação (Gênesis 1:1)
e do caos subseqüente, e não em conexão com o Dilúvio
bíblico. Teoria de uma criação prévia
“sem forma e vazia” A primeira variante considera Gênesis 1:1 como uma cláusula dependente, em paralelo com os relatos da Criação extra-bíblicos do Oriente Próximo. (6) Daí a tradução proposta: “Quando Deus começou a criar os céus e a terra”. Portanto, Gênesis 1:2 equivale a um parênteses, que descreve o estado da Terra quando Deus começou a criar (“a Terra estando ...”) e Gênesis 1:3 em diante descreve a obra criadora efetiva (“E Deus disse ...”). As outras variantes principais consideram Gênesis 1:1 como uma cláusula independente, e como um sumário ou introdução formal, ou título, que é então ampliado no resto da narrativa. (7) Gênesis 1:2 é visto como uma cláusula circunstancial ligada com o verso 3: “A Terra, porém, era sem forma e vazia ... Disse Deus: ‘Haja luz’.” Deste ponto de vista, apoiado por qualquer das análises gramaticais mencionadas acima, Gênesis não oferece um começo absoluto de tempo para o cosmos. Criação a partir do nada não é implicada, e não há indicação da existência de Deus antes da matéria. Nada é dito da criação da matéria original descrita no verso 2. Trevas, abismo e águas de Gênesis 1:2 já existiam no começo da atividade criadora de Deus. Podíamos mencionar de passagem uma outra opinião pré-Criação;
esta toma o verso 2 como uma cláusula dependente “quando
...”, mas difere da primeira variante na interpretação
dos termos tohu e bohu, e os termos para “trevas” e “abismo”
- todos significando “nada”. Assim o verso 1 é visto
como um sumário; o verso 2 diz que inicialmente não havia
“nada”; e o verso 3 descreve o começo do processo criador.
(8) Teoria de um estado inicial “sem forma
e vazio”. Esta interpretação tem duas variantes. Alguns consideram os versos 1 e 2 como partes do primeiro dia de uma semana de sete dias. Podemos chamá-la a interpretação “sem intervalo”. (10) Outros vêem os versos 1 e 2 como uma unidade cronológica separada por um intervalo de tempo do primeiro dia da Criação descrito no verso 3. Esta opinião é usualmente chamada a do “intervalo passivo.” (11)
O espaço não permite uma avaliação pormenorizada de todos os prós e contras de cada opinião aqui resumida, mas apresentaremos o esboço dos dados bíblicos que se referem às teorias sobre a origem da matéria e da vida e sua existência primitiva.
Ao considerar todas as interpretações não-literais e não-históricas, precisamos levar em conta dois fatos bíblicos significativos:
Embora as interpretações não-literais devam ser
rejeitadas no que negam (a saber, a natureza literal e histórica
do relato de Gênesis), não obstante possuem um elemento de
verdade no que afirmam. Os versículos de Gênesis 1-2 apresentam uma teologia profunda: doutrinas de Deus, Criação, humanidade, Sábado, etc. Mas nas Escrituras teologia não se opõe à história. Com efeito, a teologia bíblica tem sua raiz na história. De igual modo há um simbolismo profundo em Gênesis 1. Por exemplo, a linguagem do Jardim do Éden e a ocupação de Adão e Eva claramente aludem ao simbolismo do santuário e ao trabalho dos levitas (ver Êxodo 25-40). (18) Assim o santuário do Éden é um símbolo ou tipo do santuário celestial. Mas porque aponta para algo diferente não diminui sua realidade literal. Gerhard von Rad, um erudito crítico que não aceita o que Gênesis 1 afirma, ainda assim confessa honestamente: “O que é dito aqui ( Gênesis 1) é para ser tomado inteiramente e exatamente como está” (19). Portanto, nós afirmamos a natureza literal e histórica do relato de Gênesis. Mas qual interpretação literal é correta?
Primeiro, precisamos de início rejeitar a teoria de ruína-restauração ou “intervalo ativo” puramente por razões de gramática. Gênesis 1:2 claramente encerra três cláusulas nominais e o sentido fundamental de cláusulas nominais em hebraico é algo fixo, um estado; (20) não uma seqüência ou ação. Segundo as regras da gramática hebraica, precisamos traduzir “a Terra era sem forma e vazia”, e não “a Terra tornou-se sem forma e vazia”. Assim a gramática hebraica não deixa lugar para a teoria de um intervalo ativo. Que dizer da interpretação de uma criação prévia “sem forma e vazia” na qual o estado de tohu-bohu de Gênesis 1:2 precede a criação divina? Alguns apoiam essa teoria traduzindo o verso 1 como uma cláusula dependente. Mas a melhor evidência favorece a leitura tradicional de Gênesis 1:1 como uma cláusula independente: “No princípio criou Deus os céus e a Terra.” Isto inclui a evidência dos acentos no hebraico, todas as antigas versões, considerações léxico-gramaticais, sintáticas e estilísticas, e comparação com antigas lendas do Oriente Próximo. (21) O peso da evidência me leva a reter a leitura tradicional. Outros suportam a teoria de uma criação prévia “sem forma e vazia” interpretando Gênesis 1:1 como um sumário do capítulo todo (o ato da criação só começando no verso 3). Mas se Gênesis 1 começa apenas com um título ou sumário, então o verso 2 contradiz o verso 1. Deus cria a Terra (verso 1), mas a Terra existe antes da Criação (verso 2). Esta interpretação não pode explicar a referência à existência da Terra já no verso 2. Rompe a continuidade entre os versos 1 e 2 no uso do termo terra. (22) Concluo, portanto, que Gênesis 1:1 não é simplesmente um sumário ou título do capítulo todo. Contra a sugestão de que todas as palavras em Gênesis 1:2 simplesmente implicam “nada”, deve ser dito que o verso 3 e os versos seguintes não descrevem a criação da água, mas assumem sua existência prévia. O termo tehon - “abismo”- combinado com tohu e bohu (como em Jeremias 4:34) não parecem referir-se ao nada, mas à Terra num estado sem forma e vazia, coberta de água. Isto nos leva à teoria de um estado inicialmente sem forma e vazio. A seqüência do pensamento em Gênesis 1:1-3 tem levado a maioria dos intérpretes cristãos e judeus a esta opinião, que por conseguinte é chamada de opinião tradicional.
Concordo com esta opinião, porque acho que só esta interpretação obedece à seqüência natural destes versos, sem contradição ou omissão de qualquer elemento no texto. A seqüência do pensamento em Gênesis 1-2 é como segue:
Os pontos acima estão claros na seqüência do pensamento de Gênesis 1-2. Não obstante, há um aspecto crucial neste processo da Criação que o texto deixa aberto e ambíguo: Quando ocorreu o princípio absoluto dos céus e da Terra no verso 1? Foi no começo dos sete dias da Criação ou algum tempo antes? É possível que a matéria bruta dos céus e da Terra em seu estado informe fosse criada muito tempo antes dos sete dias da semana da Criação. Esta é a teoria do “intervalo passivo”. Também é possível que a matéria bruta descrita em Gênesis 1:1-2 esteja incluída no primeiro dia da semana da Criação. Esta se chama a teoria da “ausência de intervalo”. Esta ambigüidade no texto hebraico tem implicações na interpretação do Pré-cambriano da coluna geológica, si se equacionar o Pré-cambriano com a “matéria bruta” descrita em Gênesis 1:1-2 (naturalmente este equacionamento está sujeito a debate). Há a possibilidade de um Pré-cambriano recente, criado como parte da semana da Criação (talvez com a aparência de idade alta). Há também a possibilidade de que a “matéria bruta” fosse criada no princípio absoluto da Terra e das esferas celestes circundantes, talvez milhões ou bilhões de anos atrás. Este estado inicial informe e vazio é descrito no verso 2. O verso 3 e os versos seguintes então descrevem o processo de formar e encher durante a semana da Criação. Concluo que o texto bíblico de Gênesis 1 deixa margem tanto para (a) um Pré-cambriano recente (criado como parte dos sete dias da criação) ou (b) rochas muito mais antigas e sem fósseis, com um longo intervalo entre a criação da “matéria bruta” descrita em Gênesis 1:1-2 e os sete dias da semana da Criação descrita no verso 3 e nos versos seguintes. Mas tanto num caso como no outro, o texto bíblico requer uma cronologia breve para a vida na Terra. Não há margem para um intervalo de tempo na criação da vida na Terra: ela surgiu do terceiro ao sexto dias literais e consecutivos da semana da Criação. Referências (1) Ver Hermann Gunkel, Schöpfung und Chaos (Gottingen:
Vandenhoeck & Ruprecht, 1985); B. S. Childs, Myth and Reality in the
Old Testament, Studies in Biblical Theology, 27 (London: SCM Press, 1962),
págs. 31-50. |
Artigo publicado na Folha Criacionista 53 |