COLUNAS DE NOSSA FÉ - Tema 3

 

III – SANTIFICANDO O SÁBADO
(28 de julho de 2001)

 

Dada a especificidade do assunto desta lição, iremos transcrever vários trechos do livro “O Sábado”, de autoria de Guilherme Stein Jr., publicado em segunda edição pela Sociedade Criacionista Brasileira, cuja leitura recomendamos vivamente aos interessados nesse momentoso assunto.

 

1. POR CAUSA DE QUEM FOI FEITO O SÁBADO?

(“O Sábado”, p. 41)

 

Por causa de quem o sábado foi feito? Esta questão não será difícil responder em razão de já se achar ela parcialmente respondida. Apenas desejamos acrescentar aqui o que disse Cristo em Marcos 2:27: "O sábado foi feito por causa do homem e não o homem por causa do sábado". Homem é aqui o termo genérico e compreende todo o gênero humano, de que Adão foi o primeiro representante. Que a declaração de Cristo, porém, referente ao sábado, alude diretamente a Adão como o representante do gênero humano e o primeiro por causa de quem o sábado foi feito, ressalta dos próprios termos dessa declaração. O sábado foi feito e também o homem foi feito; o primeiro por causa do segundo e não o segundo por causa do primeiro. Quando o sábado foi feito, já o homem estava feito, não sendo possível que este fosse feito por causa do sábado que ainda não existia. Depois de feito o homem, Deus fez o sábado em atenção a este.



2. PARA QUE O SÁBADO NÃO FOI FEITO?

(“O Sábado”, pp. 41-43)


Prevalece entre muitos a idéia de que o principal benefício que Deus destinou ao homem na instituição do sábado é o descanso físico. Tem-se tentado mesmo demonstrar que o homem acusa a necessidade natural de um descanso periódico e que o que melhor lhe corresponde é o descanso semanal que Deus estabeleceu de sete em sete dias.


Não há negar que uma das necessidades mais imperiosas que para o homem se originaram com o pecado é o descanso material, necessidade que aliás não existiu ao ser instituído o sábado. Não é todavia de supor que Deus não houvesse previsto e generosamente provido também a essa necessidade. Querer porém descobrir tal providência na instituição do sábado seria desconhecer por completo a natureza e o caráter dessa instituição. Para o demonstrar basta proceder a uma ligeira análise do preceito que ordena a sua observância. Este reza como segue:


"Lembra-te do dia do sábado para o santificar" (Êxodo 20:8). Para que devo eu lembrar-me do dia de sábado? - "Para o santificar". Como devo eu fazer isto? Que quer dizer "santificar" o dia de sábado? Aí vem explicado:


"Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra, mas o sétimo dia é sábado do Senhor teu Deus; não farás (nele) nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha,

nem o teu servo, nem a tua serva, nem a tua besta, nem o teu estrangeiro que está dentro das tuas portas" (Êxodo 20:9-10).


A definição do termo "santificar" já foi dada páginas atrás. Os termos em que está concebido o preceito simplesmente a confirmam. "Santificar é separar do uso comum para um fim religioso; diferenciar do comum o que é sagrado". O primeiro foi o que Deus fez em relação ao sétimo dia; o segundo é o que ao homem cumpre fazer. De que modo? Não empregando esse dia em trabalhos seculares, para os quais Deus lhe conferiu os seis primeiros dias da semana, mas diferenciando entre esse dia e os seis dias restantes pela renúncia, nesse dia, de seus empregos ordinários.


Ora, aquilo que unicamente poderia corresponder à idéia do descanso material, como um dos principais benefícios compreendidos na instituição do sábado, isto é, a abstenção do trabalho secular, não é aqui senão o meio inculcado para a santificação ou diferenciação desse dia dos demais dias da semana, e não o fim ou o motivo porque esse dia deve ser santificado. Assim sendo, claro é que o descanso físico não é absolutamente um fim visado pela instituição do sábado. O fim ou o motivo porque o dia de sábado deve ser santificado pela abstenção de toda a obra secular, abstenção que, para ser completa, deve estender-se numa família também aos servos, aos animais domésticos e até aos hóspedes da casa, vem explicado na última parte do preceito:


"Porque em seis dias fez o Senhor os céus, e a terra, e o mar, e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou: portanto abençoou o Senhor o dia do sábado e o santificou" (Êxodo 20:11).


Daí ressalta claramente que o grande e importante fim do sábado é recordar a obra da criação e conservar viva no homem a memória do seu Criador, que em seis dias fez os céus e a terra, e o mar e tudo que neles há e ao sétimo dia repousou, abençoando e santificando Ele por isso o dia sétimo, o dia do Seu descanso.


Quanto à necessidade de descanso material, que o homem acusa desde a sua queda, pois que antes era-lhe esta completamente alheia, a natureza se incumbe de prover generosamente a mesma na sucessão regular do dia e da noite. O dia foi feito para o trabalho e a noite para o repouso do sono. A utilização sábia desse maravilhoso arranjo natural de Deus satisfaz plenamente toda a necessidade de atividade e repouso que porventura experimente o homem, sem necessidade de um repouso adicional periódico de sete em sete dias. Para os excessos pecaminosos e exigências desnaturais da civilização moderna o homem, se não pode encontrar já reparação suficiente numa utilização sábia e metódica dessa provisão natural de Deus, não deve tentar buscar um derivativo numa instituição santa como é a do sábado, sob pena de incorrer numa flagrante violação da mesma.


Releva notar que o repouso que a nós compete observar no sétimo dia não é o nosso repouso individual, e sim o repouso de Deus. O preceito explicitamente diz: "Mas o sétimo dia é o sábado (repouso) do Senhor teu Deus". O nosso repouso nesse dia é apenas o meio de observar e de comemorar convenientemente o repouso de Deus, e não o fim por que este deva ser observado. O repouso de Deus ao sétimo dia não obedeceu a nenhuma necessidade física, mas consistiu, como também se evidencia de Êxodo 31:17, numa recriação espiritual que devia servir de base a uma instituição destinada a satisfazer no homem uma necessidade igualmente espiritual. A idéia de observar o repouso de Deus com o fim de satisfazer uma necessidade material, qual seja a de um descanso periódico corporal que, em condições normais, não deve existir e só pode ser o resultado da transgressão de leis naturais, é a idéia mais grosseira que fazer-se pode de tão sublime quanto beneficente instituição.


Adão, que foi o primeiro homem a quem essa instituição foi destinada e, portanto, o primeiro a fruir os seus benefícios, não conheceu, no seu estado de inocência, a necessidade de um descanso físico. Contudo devia ter observado o repouso de Deus de conformidade com os princípios dessa instituição: abstendo-se nesse dia de suas ocupações habituais, que consistiam, segundo o Gênesis, em lavrar e zelar o jardim, para devotá-lo à contemplação das maravilhas de Deus e ao culto do seu Criador.



3. CRISTO E O SÁBADO

(“O Sábado”, pp. 83-89)


O profeta Isaías, aludindo numa de suas profecias à missão de Cristo a esta terra, assim se exprime a propósito de um dos principais objetos de sua obra:


"O Senhor Lhe mostrou boa vontade para O santificar, e (por Ele) engrandecer e exaltar a sua lei” - Isaías 42:21 ("Ao Senhor agradou, por amor de Sua justiça, que Ele engrandecesse e exaltasse a lei", Edição de Berlenburg. A versão de Almeida revista e atualizada no Brasil reza: "Foi do agrado do Senhor, por amor da Sua própria justiça, engrandecer a lei, e fazê-la gloriosa".)


Tal era o fim elevado da missão de Cristo a este mundo - engrandecer e exaltar a lei de Deus. Cristo justificou esse vaticínio do profeta quando no Seu sermão da montanha enfaticamente declarou: "Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim a derrogar, mas a cumprir. Porque em verdade vos digo, que, até que o céu e a terra passem, nem um jota nem um só til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido" (Mateus 5:17 e 18).


As idéias então reinantes a respeito da lei de Deus e professadas pelos doutores da lei eram das mais disparatadas, sobretudo no que dizia respeito ao repouso do sétimo dia. Este haviam-no eles totalmente materializado. Cingindo-se à letra do preceito e portanto à mera forma do repouso material, acabaram por dar a esta uma extensão tal, descendo a uma tal minuciosidade de detalhes, que o preceito estava longe de inculcar.


O caráter verdadeiramente sublime do repouso do sábado e o seu fim altamente significativo tinham-no eles completamente perdido de vista. A observância do sábado se resumia para eles numa absoluta abstenção de tudo quanto de alguma maneira pudesse interferir com o repouso meramente material, e até mesmo de coisas que sugerissem longínquas semelhanças com alguma sorte de trabalho, acumulando eles nesse sentido ordenanças e preceitos de sua própria lavra, que acabaram fazendo de uma das mais sublimes instituições de Deus, destinada a servir de grande bênção à humanidade, um fardo pesado e intolerável. O que era simples meio de santificação do sábado foi convertido por eles em fim exclusivo, e, contrariamente ao que a lei de Deus prescreve, elevado à sua última potência, ficando assim completamente prejudicado o seu nobilíssimo objetivo.


Assim, por exemplo, era terminantemente proibido aos sábados, segundo os preceitos acumulativos desses doutores, atar um nó ou desatá-lo; dar dois pontos com agulha; rasgar um pano ou remendá-lo com dois pontos que fosse; escrever duas letras ou apagá-las (o que eqüivalia a construir ou demolir); acender lume ou extinguí-lo; transportar qualquer objeto de lugar privado para lugar público; espremer uma fruta para extrair-lhe o suco (o que era tido como uma espécie de trilhar); aplicar um emético, pelo esforço a que isto obrigava o doente; encanar um membro fraturado; mergulhar em água um membro magoado; comer um ovo que tivesse sido posto em sábado; e por aí além sendo excusado estender a lista destas sandices a fim de persuadir ao leitor da justiça desta argüição de Cristo feita àqueles veneráveis doutores: "Atam fardos pesados e põe-nos sobre os ombros dos homens, entretanto que eles mesmos nem com o dedo querem movê-los" (Mateus 23:4 e Lucas 11:46).


A estreiteza de suas concepções acerca do repouso santo de Deus se revela também nalguns casos típicos relatados nos evangelhos, em que estes zelosos guardiões da lei ousaram increpar a Cristo de estar violando o sábado. Num sábado em que Jesus, acompanhado por Seus discípulos, atravessava as searas, estes, urgidos pelas exigências da fome, entraram a colher algumas espigas para comê-las. Mal, porém, o pressentiram alguns dos fariseus, que andavam constantemente no seu encalço, se chegaram para Cristo e lhe disseram: - "Eis que os Teus discípulos fazem o que não é lícito fazer num sábado" (Mateus 12:2). Não que o colher espigas em seara alheia para saciar a fome fosse coisa ilícita em si mesma, sendo até francamente permitido segundo o código civil (Deuteronômio 23:25), mas porque, segundo os vexantes preceitos que esses doutores a si mesmos e ao povo haviam imposto, tal ato, como o simples colher das espigas e o esfarelá-las com as mãos, ainda que para satisfazer uma das mais imprescindíveis necessidades fisiológicas, importava numa ocupação incompatível com o repouso material do sábado conforme eles o concebiam.


A tacanhice de suas vistas acerca do sábado atinge porém ao cúmulo quando, deixando de oferecer um aspecto simplesmente cômico ou ridículo, chega a patentear-se por atos da mais requintada crueldade, como nos casos em que era reputado flagrante violação do sábado tentar alguém restabelecer a saúde a um doente nesse dia, por mais deprimente e aflitivo que fosse o seu estado. Um frisante exemplo desse fato se nos depara no seguinte relato do evangelho de S. Lucas:


"E ensinava (Jesus) no sábado numa de suas sinagogas. E eis que estava ali uma mulher que tinha um espírito de enfermidade, havia já dezoito anos; e andava encurvada, e não podia de modo algum endireitar-se. E, vendo-a Jesus, chamou-a a Si, e disse-lhe: Mulher, estás livre da tua enfermidade. E pôs as mãos sobre ela, e logo se endireitou, e glorificava a Deus. E, tomando a palavra o príncipe da sinagoga, indignado porque Jesus curava no sábado, disse à multidão: Seis dias há em que é mister trabalhar: nestes pois vinde para serdes curados, e não no dia de sábado. Respondeu-lhe, porém, o Senhor e disse: Hipócrita, no sábado não desprende da manjedoura cada um de vós o seu boi ou o seu jumento e não o leva a beber? E não convinha soltar desta prisão, no dia de sábado, a esta filha de Abraão, a qual há dezoito anos Satanás tinha presa?" (Lucas 13:10-16).


Não é preciso mais para se avaliar a que abismo da ignorância havia descido o espírito desta gente, arvorada em instrutora do povo, a respeito da significação e do fim propriamente dito da instituição do sábado, uma das mais belas e sublimes da santa lei de Deus. O sábado que tinha sido feito em atenção ao homem, para seu gozo e deleite espiritual; para elevação de sua alma a Deus, livre e despreocupada dos cuidados e das aflições da terra; para seu descanso perfeito no seu Criador e Redentor, pela contemplação e meditação de Suas maravilhas, que proclamam a Sua divindade e o Seu eterno poder, bem como a Sua infinita bondade e Sua solicitude paterna por todas as Suas criaturas; o sábado, que devia proporcionar ao homem um descanso perfeito na acepção mais lata, mais completa e mais sublime da palavra, satisfazendo nele uma das necessidades mais elevadas, dava, no entender desses doutores inconscientes, maiores privilégios aos próprios brutos, cujas necessidades materiais não duvidam satisfazer no dia de sábado, com revoltante postergação dos direitos e necessidades do homem a quem as suas bênçãos propriamente se destinavam.


Ainda outros casos semelhantes de cura que Jesus operou em dia de sábado foram relatados nos evangelhos com o visível intuito de deixar patente de um lado o espírito estreito e acanhado desses pretensos doutores da lei, com relação ao sábado, e representar do outro a Cristo, o autor do sábado, cuja missão era engrandecer e exaltar a lei de Deus, diligentemente empenhado em desenvencilhar essa instituição do aluvião de idéias apoucadas e errôneas que lhe andavam associadas por efeito da absoluta incompreensão do verdadeiro caráter tanto do sábado como do seu Autor.


Como os demais preceitos, também o do sábado repousa sobre o princípio do amor, não podendo ser verdadeiramente compreendido nem efetivamente guardado por quem for alheio ao amor de Deus. Cristo, que veio ao mundo para revelar o amor de Deus, e para engrandecer e exaltar a Sua lei, pela revelação do Seu caráter de justiça baseado nesse amor, devia restituir também ao sábado do sétimo dia o seu legítimo caráter, observando-o de conformidade com o seu elevado princípio. Deleitando-se em fazer a vontade do Pai (Salmo 40:8 - "Agrada-me fazer a Tua vontade, ó Deus meu: dentro em meu coração está a Tua lei"), Cristo observou o sábado de conformidade com a Sua palavra: - "Se desviares o teu pé do sábado, de fazeres a tua vontade no Meu santo dia, e chamares ao sábado deleitoso, e o santo dia do Senhor, digno de honra, e o honrares, não seguindo os teus caminhos, nem pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falares as tuas próprias palavras, então te deleitarás no Senhor" (Isaias 58:13 e 14). Foi isto que Cristo fez e nada mais. Procedendo como procedeu em relação ao sábado, não fez a Sua própria vontade e sim a vontade de Deus, nem pôs em prática as Suas próprias obras, mas as obras do Pai. Ora, a vontade de Deus a nosso respeito é que usemos de misericórdia, que é um caráter de Deus pelo qual se revela o Seu amor. Os atos de misericórdia são portanto atos que só podem honrar a Deus e que ipso facto honram o sábado. Se os judeus tivessem compreendido isto, não teriam condenado os discípulos pelo simples fato de no sábado colherem espigas para saciar a fome, como também Cristo lh'os exprobrou: - "Se vós tivésseis conhecido o que significa: misericórdia quero, e não sacrifício, não teríeis condenado os inocentes" (Mateus 12:7).


Assim, curando aos doentes em dia de sábado, Cristo não seguia os Seus próprios caminhos nem praticava as Suas próprias obras, e sim as obras d'Aquele que o enviara, conforme Ele próprio o atesta, ao dispor-se, num dia de sábado, a restituir a vista a um cego: - "Convém que eu faça as obras daquele que me enviou ... tendo dito isto, cuspiu na terra, e com o cuspo fez lodo e untou com o lodo os olhos do cego. E disse-lhe: Vai, lava-te no tanque de Siloé. Foi pois, e lavou-se, e voltou vendo" (João 9:4 e 6-7).


O relatório termina advertindo expressamente que era sábado aquele dia: - "E era sábado quando Jesus fez lodo e lhe abriu os olhos" (João 9:14). Com efeito, não era preciso mais nada; bastava aquilo, o simples fato d'Ele haver feito lodo em dia de sábado para, aos olhos dos fariseus, Jesus ser redondamente condenado como violador do sábado por mais elevado e nobre que fosse o intuito a que esse Seu ato obedecesse, o qual, aliás, na sua lamentável cegueira, estavam longe de reconhecer como tal, não duvidando mesmo qualificá-lo ao lado das coisas ilícitas em dia de sábado. Não nos deve surpreender, pois, que, informados que foram do caso, eles se manifestassem a respeito de Jesus com esta declaração peremptória: - "Este homem não é de Deus, porque não guarda o sábado" (João 9:16).


Gravíssima acusação, na verdade, irrogada a alguém que, no dizer do profeta, devia engrandecer e exaltar a Lei de Deus, e que, segundo o Seu próprio testemunho, tinha vindo a cumprir a Lei, como disse, sem omissão de um jota ou de um til. Se Cristo não guardou o sábado do sétimo dia, o sábado definido pela lei e na forma preceituada pela lei, como ousam repetí-lo alto e bom som até doutores religiosos modernos, parodiando a acusação movida a Cristo por parte de Seus inimigos, então Ele não cumpriu a lei conforme asseverou que havia de cumprí-la; e não só isto - desmentiu ao profeta e mentiu a Si próprio e ao mundo! Mas não há tal. A verdade surge nítida e insofismável dos próprios sucessos que deram azo a uma tão injusta quanto temerária increpação.


Cristo guardou o sábado à risca, sem omissão de uma letra ou acento sequer, segundo Ele próprio o declarara, mas não guardou-o segundo as tradições dos fariseus que, pondo no preceito do sábado um sentido que ele absolutamente não tem e que Deus nunca lhe pôs, o soterraram sob uma avalanche de ordenanças de sua lavra, que traduziam as suas próprias concepções a tal respeito, invalidando assim o preceito de Deus, como Cristo abertamente lhes exprobra: - "Assim invalidastes pela vossa tradição o mandamento de Deus" (Mateus 15:6).


Nem Cristo se limita a fazer-lhes esta exprobração firmado unicamente na Sua autoridade pessoal que eles não reconheciam, mas cita-lhes o mesmo profeta que, vaticinando a Sua missão de engrandecer e exaltar a lei de Deus, assinalou com a mesma antecipação a falsa atitude desse povo em relação a essa lei, que com as suas tradições haviam amesquinhado e desonrado: - "Bem profetizou Isaías acerca de vós" - disse-lhes - "como está escrito: Este povo honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim; em vão Me veneram, ensinando doutrinas, mandamentos de homens" (Mateus 15:8 e 9).


Se a conduta de Cristo houvesse ela própria revelado qualquer transigência ou discrepância da letra do sábado, por insignificante que fosse, ter-se-ia Ele cumpliciado com os judeus, colaborando no mesmo delito, e nenhum direito Lhe teria assistido de verberá-los por isto. A mesma autoridade com que o fazia requeria n'Ele uma exata conformidade com os termos do preceito, sem sombra de dissentimento. E nem sequer pode haver dúvida alguma quanto a haver Cristo, segundo Ele próprio de antemão o afirmou, se conformado em tudo e sem a mínima divergência à letra do sábado.


Esta requer do homem no sétimo dia a renúncia de seus empregos ordinários de cada dia com que ele provê a sua subsistência e daquelas ocupações que, dizendo respeito aos seus interesses puramente materiais, são perfeitamente dispensáveis ou possam de alguma maneira distrair-lhe o espírito do cuidado que lhe devem merecer nesse dia os seus interesses eternos, os interesses que se prendem com aquele descanso que o sábado representa ou tipifica.


Mas tal repouso não pode de maneira alguma significar um repouso absoluto, materialmente falando. O repouso de Deus no sétimo dia, que, segundo o preceito, é o que nos cumpre observar por um ato imitante ao de Deus, consistiu, ao ponto de vista material, apenas numa cessação de Sua atividade criadora com relação a este mundo no que diz respeito à criação de entidades novas. A manutenção dos seres já criados, porém, exigia da parte de Deus a continuação, mesmo no dia de sábado, da atividade do Seu poder criador, sob pena de toda a Sua obra recair o caos e no nada, e a vida, que é a suprema manifestação desse poder, cessar por completo. Daí a conclusão necessária e lógica que o repouso do sétimo dia não exclui absolutamente as obras de necessidade imediata à manutenção da vida. É essa uma obra de Deus que não tem cessado um só instante desde que o mundo foi criado, sendo esse justamente o fato alegado por Cristo em justificação de sua prática quando falou aos judeus que buscavam matá-l'O por isso que se permitia tal obra no dia de sábado: - "Meu Pai não cessa de agir até agora" - disse - "e Eu também" (João 5:17).


Saciar a fome é prover a uma necessidade fisiológica que diz respeito à manutenção da vida, e que constitui em certo sentido uma necessidade imediata, por isso que implica um começo de destruição da energia vital. Assim a doença, sob qualquer forma, importa num começo de dissolução da vida material, obstar à qual é não só um sagrado dever, como um ato que só pode honrar ao Autor da vida, sendo portanto lícito de se praticar no Seu santo dia, à imitação do que Ele próprio fez, tem feito e continua a fazer em bem e para felicidade de seu universo. Eis, porém, o que os fariseus estavam longe de compreender, por isso que o seu coração estava longe de Deus, e portanto alheio ao Seu divino amor e à misericórdia divina. Extremando-se até às raias do fanatismo na renúncia das obras meramente materiais, com manifesto desprezo das obras do pecado, que são as menos compatíveis com o repouso de Deus, iam a ponto de evitar, senão condenar como ilícitas, ocupações que, com serem inofensivas à santidade do sábado, são as que patenteiam o legítimo culto do coração, que não somente o dos lábios, tão severamente argüido pelo profeta àquele povo obcecado.


Escapava à perspicácia desses zelosos depositários da lei, ou pelo menos fingiam eles ignorar, a manifesta incoerência entre o seu exagerado e extravagante escrúpulo pela parte simplesmente material do repouso e os sentimentos hostís que nutriam em seus corações com flagrante quebra desse repouso, a ponto de armarem ciladas à vida de Jesus no próprio dia de sábado; incoerência que Cristo, lendo nos seus corações, e sabendo-se deles observado num dia de sábado em que se dispunha a curar um doente, lhes exprobrou com esta pergunta finamente irônica: - "É lícito no dia de sábado fazer bem, ou fazer mal, salvar a vida ou tirá-la?" (Marcos 3:7)


{Desta pergunta, bem como da conclusão final, tirada por Jesus do seu argumento, resulta que para Cristo a questão não se cifrava em saber si se devia ou não guardar o sábado, questão que, segundo o Seu próprio testemunho dado a respeito da lei e de cada um de seus mandamentos (Mateus 5:17-19), não admitia sombra de dúvida. Esta estava toda em saber o que era e o que não era lícito fazer nesse dia, ou por outra, como convinha que fosse guardado o sábado. Segundo as tradições dos fariseus, sabia-o Ele muito bem, não era permitido restituir a saúde a um doente em dia de sábado. Restava saber agora se tal era ou não permitido segundo a lei de Deus, pois que todo o Seu empenho, tanto neste como em todos os demais casos de cura que operou em sábado, era deixar patente que com isto estava cumprindo "as justas exigências da lei". Para prová-lo não foi preciso mais do que pôr à mostra a calva ao alógico das teorias farisaicas que, sob o falso pretexto de honrar a Deus e à Sua lei, se honravam a si próprios, decretando ordenanças que constituíam a perfeita negação da lei divina. Aliás é o que sempre sucede quando os homens, fugindo às injunções explícitas da Lei divina, se propõem melhorar e aperfeiçoar o que Deus fez, acrescentando-lhe idéias e exigências que só redundam numa invalidação da mesma. É o que se vai ver comprovado também em épocas posteriores da igreja e particularmente em relação ao sábado.}


Os fariseus, percebendo aonde Jesus pretendia chegar e para furtar-se à contradição e ao conseqüente ridículo, prudentemente se abstiveram de Lhe responder, o que entretanto não impediu que eles, na sua obstinada e voluntária cegueira, prosseguissem nesse mesmo dia os seus criminosos projetos, porque os fariseus, termina dizendo o relatório, "saindo dali, entraram logo em consulta com os herodianos contra Ele, para ver um meio de Lhe tirar a vida" (Marcos 3:6).


"É por conseqüência lícito fazer bem aos sábados" (Mateus 12:12). Tal é o corolário que Jesus tira do argumento fornecido pela própria conduta dos fariseus, para justificar a Sua prática e demonstrar que Se não tinha desviado nem mesmo da letra do preceito. O menor deslize desta teria equivalido a uma violação da lei "porque qualquer que guardar toda a lei, e deslizar em um só ponto é culpado de todos"(3). Se pois Jesus se tivesse feito culpado de um tal deslize enquanto ao sábado, não teria cumprido a lei, e Sua justiça não poderia, como diz o apóstolo, ter o testemunho ou a aprovação desta. Está pois demonstrado, além de toda dúvida, que Jesus guardou o sábado à risca, "conforme o mandamento", como aliás, implicitamente, o tiveram de reconhecer os Seus próprios inimigos. Ao mesmo tempo, porém, Ele restituiu ao sábado aquele caráter sublime que ele tinha ao princípio, confirmando assim a missão a Ele atribuída pelo profeta de engrandecer e exaltar a lei de Deus.



4. A TRADIÇÃO DOS JUDEUS


As muitas e detalhadas regulamentações rabínicas concernentes à proibição do trabalho aos sábados são relacionadas em listas constantes da Mishnah (Vide ítem "The Regulations in Rabbinic Literature" em FRIEDRICH, Gerhard, Theological Dictionary of the New Testament, pp. 12-14, Wm. B. Eerdmans Publishing Co., Grand Rapids, Michigan, U.S.A., Vol. VII, 1971).


Segue abaixo a tradução do texto completo do Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia citado na Nota I da página 44 da Lição, referente à “colheita das espigas” pelos discípulos de Jesus em dis de sábado:


“Em qualquer outro dia da semana que não o sábado, esta ação dos discípulos certamente não teria merecido qualquer observação, pois a lei (civil) do Velho Testamento permitia que uma pessoa com fome pudesse comer dos frutos ou grãos de uma vinha ou seara pela qual passasse (Deuteronômio 23:24-25).


A aprovação aqui dada por Cristo ao que Seus discípulos fizeram, e os Seus próprios atos de cura no dia de sábado freqüentemente são mal interpretadas por comentaristas modernos, como sendo prova de que Ele nem observou pessoalmente, nem ensinou os seus discípulos a observarem as leis do Velho Testamento e os regulamentos a respeito da observância do sábado. Alguns declaram, ainda, que a posição tomada por Cristo com relação a esses assuntos deva ser interpretada como uma rejeição Sua do quarto mandamento. O fato, porém, é que Jesus pessoalmente manteve-se fiel aos requisitos da lei de Moisés e do Decálogo em todos os respeitos, e ensinou a Seus seguidores a proceder da mesma maneira. Repetidamente Ele afirmou a natureza eternamente obrigatória da lei moral (Ver comentários feitos sobre Mateus 5:17-18; João 14:10, etc. neste Comentário), e reconheceu também a validade do ritual da lei de Moisés como aplicável aos judeus daquela época (Ver comentários feitos sobre Mateus 23:3). E Ele, Jesus, naturalmente era judeu.


Entretanto, em todo o Seu ministério terrestre, Cristo entrou em conflito com os líderes judaicos quanto à validade das leis feitas pelos homens, e as tradições (Ver comentários feitos sobre Marcos 6:2, 3, 8). Com relação a estas exigências que aparentemente muitos de seus contemporâneos tinham chegado mesmo a ver como mais essenciais do que a piedade e as leis de Moisés e o Decálogo, Cristo assumiu a posição de total confronto (Ver comentário sobre o capítulo 2, v. 19). O exame mais sucinto dessas exigências torna evidente o seu caráter absurdo, não obstante os fariseus firmemente ensinassem que a salvação tinha de ser obtida através da rigorosa observância de todas aquelas regras. A vida de um judeu piedoso tendia a se tornar um esforço infindável e vão para evitar a impureza cerimonial que resultava quando o menor detalhe dessas exigências puramente humanas, fosse desobedecido inadvertidamente. Esse sistema de justificação pelas obras estava em conflito mortal com a justificação pela fé.


A Mishnah apresenta uma lista de 39 tipos de trabalho principal proibidos no dia de sábado (Shabbat 7.2, ed. Soncino do Talmud, pp. 348, 349). Os primeiros 11 da lista eram atividades relativas à produção e preparação do pão: semear, arar, colher, enfeixar o grão, bater, separar a palha, escolher o que é impróprio para alimento do que é apropriado, moer, peneirar, amassar e assar. Os doze seguintes aplicam-se a passos semelhantes na confecção de roupas, desde tosquiar as ovelhas até a costura real de artigos de vestuário. Depois vêm sete passos na preparação da carcaça de um cervo para ser usado como alimento ou para o couro. Os demais itens tratam de escrever, construir, acender e apagar o fogo, e transportar mercadorias de um lugar para outro. Esses regulamentos gerais foram mais tarde minuciosamente detalhados. Além desses importantes regulamentos havia incontáveis outras providências relativas à observância do sábado. Talvez seja mais comumente conhecido o “caminho de um dia de sábado”, de 2.000 cúbitos – algo pouco menor do que 1.100 metros. Era tido também como transgressão do sábado olhar-se em espelho fixo na parede (Shabbat, 149a, ed. Soncino do Talmud, p. 759), ou até mesmo acender uma vela. Não obstante, as mesmas regulamentações permitiam que um ovo posto no sábado fosse vendido a um gentio, bem como pagar a um gentio para acender fogo ou uma vela. Era tido como ilegal cuspir no chão, pois isso poderia constituir um trabalho para irrigar uma haste de grama. Não era permitido carregar um lenço no sábado, a menos que uma ponta dele fosse costurada a uma peça de roupa – pois nesse caso ele tecnicamente deixava de ser um lenço e passava a fazer parte da roupa. De maneira semelhante, a regulamentação sobre a distância do caminho de um sábado podia ser superada pelo estratagema de esconder porções de alimento em intervalos adequados ao longo do caminho a ser percorrido, Tecnicamente, então, o lugar onde estivesse o alimento podia ser considerado como outra “casa” da pessoa. A partir de cada esconderijo era então possível andar mais um caminho de um sábado, e assim sucessivamente. Tais eram alguns dos “fardos pesados e difíceis de carregar” (Mateus 23:4) que tinham sido postos sobre os ombros dos judeus piedosos dos tempos de Cristo.


Assim, coando moscas e engolindo camelos, os fariseus estavam continuamente empregando a letra das leis feitas pelos homens para destruir o espírito da lei de Deus. O sábado, designado em sua origem para proporcionar ao homem uma oportunidade de conhecer o seu Senhor através do estudo das coisas por Ele criadas, e de refletir sobre o Seu amor e bondade, tornou-se uma lembrança do caráter egoísta e arbitrário dos fariseus e escribas. Efetivamente passou a distorcer o caráter de Deus, descrevendo-O como um tirano.


A natureza declara a sabedoria, o poder e o amor de Deus, e era para chamar a atenção da humanidade para esses atributos que o sábado fora estabelecido desde o princípio, para que o ser humano não se tornasse tão absorvido em suas próprias atividades que viesse a se esquecer d´Aquele que lhe criou, e que constantemente exercia Seu divino poder para a sua felicidade e bem estar. O problema que alguns cristãos modernos encontram para determinar o que pode e o que não pode ser adequado como atividade para o sábado, é rapidamente resolvido desde que se tenha em mente claramente o propósito do sábado. Qualquer coisa que nos leve para mais perto de Deus, que nos ajude a compreender melhor a Sua vontade para nós, e os Seus caminhos no trato conosco, e que nos leve a cooperar mais efetivamente com Ele em nossas próprias vidas, e que contribua para a felicidade e bem-estar de outros – essa é a verdadeira observância do sábado (Isaías 58:13, Marcos 2:27-28).”