Estudo 3 - Índice Comentários - Comentários Prof. Roberto Azevedo
| MAS FOI MESMO ASSIM? |
1 A veracidade e a fidedignidade dos registros históricos
A História nada mais é do que o registro dos acontecimentos passados. Deixando de haver registros, deixa de haver História. Como os registros pressupõem um tipo de linguagem (expressa mediante a arte em suas várias manifestações pintura, escultura, e arquitetura, por exemplo ou mediante a escrita pictórica, ideográfica, silábica, ou alfabética, fica claro que os acontecimentos ocorridos antes da invenção dessas manifestações não podem se revestir de caráter propriamente histórico, circunscrevendo-se, portanto, ao âmbito da Pré-história, ou ainda, eventualmente, das tradições orais, ou mesmo de meras conjecturas.
Por essa razão, jamais será possível conseguir registro histórico de acontecimentos que têm a ver com a origem de nosso planeta, da vida sobre a face da Terra, ou sobre o surgimento do ser humano. Sobre tais assuntos, ou se têm tradições orais sobre cuja veracidade e fidedignidade não se tem controle algum, ou se parte para o campo das conjecturas, tentando-se recuperar cenários a partir de evidências que, por sua vez, serão tratadas de conformidade com estruturas conceituais previamente aceitas em função de numerosos fatores.
A posição evolucionista hoje em dia permeia o pensamento científico de tal modo que a ausência de registros históricos acaba sendo suprida em grande parte pela imaginação do pesquisador, cuja mente parece ter sido bastante fértil para elaborar as mais extravagantes conjecturas! A veracidade e a fidedignidade de concepções elaboradas dentro da conceituação evolucionista estão constantemente sendo submetidas ao escrutínio da pesquisa científica, sempre sujeitas àquilo que o acatado filósofo da ciência, Thomas Kuhn, chamou de "mudanças de paradigmas", em sua análise da estrutura das revoluções científicas.
Na posição criacionista, o relato bíblico sobre as origens é considerado como um testemunho histórico veraz e fidedigno, uma revelação divina dada ao ser humano, embora sem a intenção de ser um compêndio de Ciência ou de História. E, como afirma Ellen G. White, em seu livro Educação (pág. 169), não nos foi removida a possibilidade da dúvida (o que nos retiraria a capacidade de decidirmos por nós mesmos), e a fé na revelação divina "deve repousar sobre evidências, e não sobre demonstrações" (as quais, aliás, são sempre susceptíveis de vieses,
tautologias [Tautologia: Erro lógico que consiste em aparentemente demonstrar uma tese repetindo-a com palavras diferentes Aurélio], sofismas, etc.).2 Literatura da Mesopotâmia sobre as origens
Embora não constituindo um registro histórico na plena acepção da palavra, a literatura sobre as origens, encontrada na Mesopotâmia, retrata o conceito sobre a Criação e o Dilúvio existente nos meios cultos daquela região, onde então florescia uma das mais imponentes civilizações da antigüidade, contemporânea ao patriarca Abraão.
De fato, dentre os relatos escritos nos tijolos de argila que a Arqueologia descobriu, encontram-se alguns que despertaram maior interesse, por se referirem a narrativas da Criação e do Dilúvio.
Dentre eles, destaca-se inicialmente o épico intitulado Enûma elish ("Quando acima", em Português, palavras iniciais do poema), cujos primeiros fragmentos foram descobertos por Austen H. Layard e outros arqueólogos nas ruínas da Biblioteca do rei Assurbanipal (c. 668 630 a.C.) , em Nínive. A sua grande popularidade é devida, em parte, ao seu significado para o estudo dos pontos de vista <link>
teogônicos [teogonia: doutrina mística referente ao nascimento dos deuses, e que freqüentemente se relaciona com a formação do mundo. Aurélio] e <link> cosmogônicos [cosmogonia: ciência que trata da origem e da evolução do Universo Idem] contemporâneos, na Mesopotâmia, e sobretudo pelas grandes analogias com o relato dos dois capítulos iniciais do livro de Gênesis.Numerosos outros relatos existem, recuperados também em coleções mais ou menos completas de tijolos de argila, versando sobre a origem de todas as coisas, de maneira fundamentalmente idêntica, embora apresentem diversas variações mais ou menos significativas. Dentre eles se destaca o relato bilingüe (em Sumério e Babilônio) descoberto por Hormuzd Rassam nas ruínas de Sippar, e datando do sexto século A. C., mas apontando para uma antigüidade que se estende à época dos Sumérios, a mais antiga civilização sobre a qual existem registros históricos. Além desse, outros relatos fragmentares são também conhecidos, como, por exemplo, o referente à "Criação dos seres vivos", "Quando Anu criou os céus", "A criação do homem", "A criação da Lua e do Sol", etc.
Acrescem ainda os relatos do Dilúvio, mais antigos, desde versões que se encontram ainda na língua Suméria, passando pelo épico de Atram-Hasîs, inspirado nas versões sumérias, e chegando até o épico de Gilgamesh.
Em todos esses relatos, percebe-se a existência de um relato anterior, do qual são eles corruptelas não fidedignas. Na nossa concepção criacionista, entendemos que o relato primordial deva ser algo que guarde estreita correlação com o texto bíblico revelado a Moisés, do qual, com o correr do tempo, foram surgindo versões mais ou menos adulteradas, das quais as citadas acima constituem um exemplo ilustrativo.
3 O gênero literário do relato bíblico da Criação
Transcrevem-se, a seguir, trechos do interessante artigo de Gerhard F. Hasel, então professor de Teologia Bíblica e Velho Testamento na Universidade Andrews, publicado na Folha Criacionista no 53, versando sobre a literalidade dos dias da Criação no primeiro capítulo de Gênesis:
"A crítica formal, um sub-método do método histórico-crítico, iniciou-se com Hermann Gunkel, conhecido como o pai da crítica formal, na virada do século. Gunkel levantou a questão sobre se as narrativas de Gênesis são história ou lenda. Sua premissa era que muitas coisas relatadas em Gênesis ... vão diretamente de encontro ao que temos de melhor em nosso conhecimento. A idéia contida nessa expressão constitui uma admissão tácita da parte de Gunkel de que a concepção de mundo evolucionista naturalística constitui a norma autorizada para julgar o que é história ou o que é lenda. Desta forma, sugeriu ele que o gênero literário de Gênesis não é história, e sim lenda. Gunkel foi o primeiro erudito liberal a atribuir ao relato da Criação, constante de Gênesis, outro gênero literário que não história no sentido de um relato factual. Posteriormente acompanharam-no outros eruditos liberais e teólogos neo-ortodoxos, e também hoje, em parte, eruditos neo-evangélicos que são concordistas abrangentes.
"Embora não precisemos tentar ser exaustivos na citação de categorias de estilos literários que têm sido propostos para classificar Gênesis, poderão ser citados alguns dos principais exemplos representativos. Karl Barth, o pai da teologia neo-ortodoxa, considera Gênesis 1 e 2 uma saga, e, conseqüentemente, não histórico. S. M. Hooke, líder da escola do mito-e-ritual, afirma que o relato da Criação de Gênesis é uma liturgia cultual. Gordon Whenham, erudito não-evangélico, acredita ser ele um hino. Walter Brueggemann, não-concordista liberal, sugere que é um poema. Claus Westermann, crítico formal, chama-o de narrativa. John H. Steck, concordista abrangente, chama-o de narração metafórica. Gerhard von Rad, crítico da tradição, designa-o como doutrina. Outros sustentam ser um mito, uma parábola, história, teologia, alegoria, etc.
"O consenso óbvio é que não há consenso sobre o gênero literário de Gênesis 1. ... Como não há consenso, o intérprete cuidadoso deveria ser mais cauteloso, evitando engrossar o cortejo triunfal da identificação do gênero literário com o propósito de redefinir a intenção de Gênesis 1. A intenção da descrição do estilo pela crítica formal, desde o início, dos tempos de Gunkel até hoje, tem sido fazer com que o texto de Gênesis não seja considerado como histórico e factual em sua natureza."
Para nós, criacionistas, a exposição de Gerard F. Hasel é indicativa da falta total de consenso a respeito do texto dos capítulos iniciais de Gênesis, o que, por sua vez, reflete a impossibilidade de todas as conjecturas serem coerentes ou convergentes, visto que elas não dependem exclusivamente das evidências, mas da sua interpretação, de conformidade com um ponto de vista previamente assumido.
Em resumo, observa-se uma verdadeira guerra aberta em numerosas frentes, contra o caráter histórico-factual da singela revelação bíblica sobre a Criação!
4 - Em conexão com a realidade histórica, novamente o "acaso"
Atentemos para estas citações em que Siegfried Júlio Schwantes aborda a relação entre o acaso e a providência, e entre a providência e a liberdade, o que será interessante para melhor nos lembrar do "caminho pelo qual Deus nos tem conduzido":
"Deus, por Sua providência, age tanto na natureza como na História. Esta percepção de uma providência atuante era uma pressuposição básica dos escritores bíblicos, e era tacitamente assumida por pensadores cristãos de todos os tempos.
"Certamente [o Universo] opera com regularidade predizível. Cientistas têm gradualmente descoberto essas regularidades em campos cada vez mais vastos, e têm expressado sua compreensão das mesmas nas assim chamadas leis da natureza. Mas a existência de leis da natureza não exclui a necessidade de uma Providência mantenedora, do mesmo modo que a existência de um código penal não dispensa os agentes da lei. Leis não operam por si mesmas. Nunca são a causa dos fenômenos. São apenas a maneira do homem descrever o comportamento regular da natureza. ... A ciência é a tentativa sistemática de descobrir e formular essas leis de um modo cada vez mais geral e exato. ...
"Uma falácia ridícula é a noção de que, à medida que a ciência progride em sua explicação do Universo, há cada vez menos lugar para a atividade divina. ... O dilema que se apresentava ao crente em Deus era óbvio. A providência implica a liberdade divina de agir através e acima das leis da natureza. Mas, num Universo governado inexoravelmente pela lei natural, todo acontecimento era considerado como já predeterminado, excluindo qualquer interferência divina. De acordo com este ponto de vista, todos os eventos futuros estão implícitos no presente e são por ele determinados. ... Num tal clima intelectual, a fé religiosa sentia-se constrangida. ...
"W. G. Pollard (que foi diretor do Instituto de Estudos Nucleares em Oakridge, em seu livro Acaso e Providência) escreve: A situação típica na ciência é de natureza tal que várias alternativas são possíveis em cada processo natural. ... As leis exprimem graus de probabilidade favorecendo uma alternativa entre outras. Não se reconhece mais, no domínio dos fenômenos atômicos, a fixidez da relação causa-efeito. Como as tabelas atuariais de companhias de seguros predizem com precisão que percentagem de pessoas de uma faixa etária morrerá num dado ano, mas nada podem afirmar quanto à morte de um indivíduo qualquer, assim as leis naturais podem predizer o comportamento de um grande número de átomos sob condições experimentais definidas, mas nada podem afirmar quanto a um átomo individual. ...
"Se não há determinismo estrito no universo físico, menos razão há para supor que o universo humano esteja sujeito a estrito determinismo. O conceito de que a História é aberta encontra-se, pois, justificado. A cada ponto de seu desenrolar, a História confronta-se com inúmeras alternativas. Que alternativa será seguida é, do ponto de vista secular, uma questão de acaso. Mas, do ponto de vista da fé, a alternativa seguida pode ser uma prerrogativa da Providência.
"O acaso, compreenda-se bem, nada explica. O acaso não é um novo fator introduzido, no caso da ciência, pelas portas do fundo. Simplesmente expressa que, em qualquer contingência, além do fato de que diversas alternativas são possíveis, a ciência nada mais tem a dizer. ...
"A incompatibilidade do conceito determinista com o conceito providencial da História foi sentida por muitos estudiosos da Bíblia, embora não pudessem articulá-la em termos da nova compreensão alcançada pela física moderna. ... O processo mundial é aberto. É a sucessão das efetivações prováveis de possibilidades. Por conseguinte, não corre sobre os trilhos de ferro dos deterministas, nem, do outro lado, é um atoleiro ininteligível de eventos fortuitos. ... O futuro deve ser considerado como fluido e aberto tanto à liberdade do homem como à direção divina.
"A concepção bíblica rejeita o determinismo histórico por solapar a responsabilidade individual que é fundamental para a compreensão do homem como ser criado à imagem de Deus. Rejeita igualmente a opinião de que a História seja completamente indeterminada, isto é, que não apresente uma configuração discernível. A concepção bíblica é de que a História está sob o controle de Deus. Esta concepção preserva o livre-arbítrio do homem e sua responsabilidade, e ao mesmo tempo mantém que Deus dirige o curso da História. ...
"A noção de que a História é a história da liberdade é uma chave valiosa para traçar a operação da Providência na História. O homem nunca pode concretizar todas as potencialidades de seu ser, salvo numa atmosfera de liberdade. Desejando que o homem fosse um ser moral responsável, o Criador devia providenciar para que ele gozasse de um mínimo de liberdade. Daí o interesse do Criador no processo histórico. Para salvaguardar Seu propósito original em relação ao homem, o Criador não pode permitir que o processo histórico reduza o homem a uma escravidão irresponsável. Se este é o propósito divino, então o plano da redenção deve incluir tanto a libertação do homem da escravidão do pecado como de seu corolário, a escravidão política. O pecado viciou todas as relações humanas. O pecado resultou do egocentrismo e se perpetua em egocentrismo crescente. É esta idolatria do ego que compele o homem a escravizar seus semelhantes, e que faz da História uma história de tirania e prepotência, de um lado, e do esforço humano, do outro, para recuperar e preservar a liberdade e a dignidade humanas. Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres."
5 O diálogo de Jó
O capítulo 31 do Livro de Jó encerra o discurso de Jó, repetindo e ampliando os temas considerados nos capítulos anteriores. A partir do capítulo 32, encontra-se um longo discurso de Eliú, repreendendo a Jó e fazendo-lhe perguntas com a intenção de ressaltar a sua insignificância em face da majestade de Deus, pelo que não lhe reserva qualquer direito de questioná-Lo. A série de perguntas feitas por Eliú é semelhante à que o próprio Deus fará, num crescendo, no capítulo 38, pondo fim aos diálogos apresentados no Livro de Jó.
Gerald Wheeler comenta o encerramento do diálogo entre Jó e seus amigos:
"Os debates terminam, e os amigos de Jó nada mais têm a dizer. ... Freqüentemente, as pessoas que se deleitam com debates não escutam ninguém mais além de si mesmas. Tudo que eles fizeram foi demonstrar uma vez mais que o debate é incapaz de mudar as mentes, e não ajuda a ninguém.
"Encerrando essa seção do livro, o patriarca em seu discurso faz uma revisão de sua vida passada, se autocompadece de maneira profunda quanto à sua condição atual, e continua em luta íntima em face de seu inexplicável sofrimento. Em seu solilóquio, na realidade dirige a Deus uma súplica final para que rompa Seu silêncio e lhe responda."
Os dois longos discursos de Deus, que então são apresentados, na realidade não constituem respostas às perguntas que tinham preocupado a Jó, e às quais os seus amigos não haviam conseguido responder. Entretanto, percebe-se que nas perguntas feitas por Deus a Jó encontram-se veladamente respostas às questões levantadas por ele em seus discursos anteriores, como continua Gerald Wheeler a considerar:
"Por exemplo, nas imagens poéticas da aurora (Jó 38:12-15), recorda a Jó que, apesar de os ímpios poderem executar suas maldades nas trevas, quando chega a luz da manhã, suas obras são expostas e chegam a um fim. Tanto o mar (considerado nos versos 8 a 11) quanto os ímpios estão submetidos a certos limites. ... Não sabemos por que Deus estabelece os limites que fixa, mas podemos confiar que Ele sabe o que faz, e só busca o melhor para a Sua criação.
"As perguntas de Deus dirigidas a Jó, tratando de alguns fatos da natureza que ainda hoje continuam a intrigar os cientistas, são feitas com a clara intenção de levar Jó a reconhecer que, da mesma forma em que ele não tinha condições de conhecer e controlar o mundo natural, também não estava capacitado a julgar os acontecimentos que se desenrolavam no âmbito do mundo moral. ... Na realidade, Deus perguntou a Jó se sabia como Ele operava na natureza, mas a ênfase não estava posta no conhecimento científico, e sim no interesse e cuidado de Deus por Sua criação."
Para não ficarmos imaginando que Jó e seus companheiros refletiam apenas um incipiente conhecimento sobre as obras de Deus expressas na natureza, que corresponderia à limitada "sabedoria dos antigos", é conveniente considerar o que Adam Clarke expõe em seu famoso comentário bíblico, tratando do capítulo 38, versos 12 a 15:
"Supõe-se geralmente que os tempos antigos eram repletos de ignorância bárbara, e que o sistema de filosofia hoje aceito e estabelecido pela experiência seja uma conquista moderna. Entretanto, nada mais falso do que isso. A Bíblia claramente revela ao leitor atento que, muito antes de terem nascido Pitágoras, Arquimedes, Copérnico ou Newton, eram conhecidos os conceitos de estática, da circulação do sangue, da esfericidade da Terra, do movimento dos planetas, etc. É bastante razoável supor que Deus tenha implantado na mente de Sua primeira criatura os primeiros princípios de todas as ciências, que Adão os tenha transmitido à sua posteridade, e que a tradição oral os tivesse transmitido de geração a geração com os incrementos adequados. Entretanto, muito foi perdido em conseqüência de guerras, cativeiro, etc. Algo foi recuperado em épocas posteriores, principalmente com o auxílio direto ou indireto das Escrituras Sagradas, e muito continua ainda escondido, apesar das acuradas e persistentes pesquisas modernas."
Eliú na realidade queria ver-se livre do questionamento de Jó, ao passo que Deus, em Seu amor, desejava fazer com que Jó percebesse a diferença fundamental entre o Criador e a Criação. O Senhor levou Jó a sério, ajudando-o a reconhecer o fato de que, mesmo que lhe explicasse todos os mistérios do sofrimento, Jó não conseguiria compreendê-los. O patriarca precisava crer simplesmente que Deus sabe o que faz. Cremos nós nisso também?
"O Senhor falou a Jó." Jó cresceu em sabedoria, sua visão de Deus foi expandida além de todos os limites anteriores, e passou a ter uma nova apreciação do escopo e da harmonia do mundo de Deus, do qual era ele uma parte minúscula. Sua expressão agora, impetuosa e espontânea, é de admiração irrestrita: "Podes fazer tudo! Nenhum dos Teus planos pode ser frustrado!"
6 Jericó Foi mesmo assim?
É freqüente serem trazidos pelos meios de comunicação artigos e notícias sobre achados arqueológicos ao longo da rota do Êxodo, tentando lançar dúvida ou descrédito sobre numerosos acontecimentos ocorridos durante a saída dos israelitas do Egito. E quanto mais estiverem envolvidos nesses acontecimentos aspectos de cunho sobrenatural, mais freqüentes e eloqüentes são as argumentações trazidas à luz.
Há relativamente pouco tempo, por exemplo, um periódico de grande circulação (ISTOÉ, encarte "O Livro do Conhecimento", página 25) apresentou a seguinte consideração a respeito da tomada da cidade de Jericó: "Estudos arqueológicos mostraram que a última fortificação ao redor de Jericó foi destruída em 1550 a.C., e como Jericó não chegou a ser reconstruída depois desta última devastação, quer dizer que quando Josué chegou com os israelitas, em 1200 a. C., a cidade havia deixado de existir há 350 anos. Portanto, a tomada de Jericó careceria de fundamento histórico."
A esse respeito, deve-se ressaltar que o assunto da datação dos eventos relacionados com a entrada dos israelitas em Canaã e, particularmente, da queda de Jericó, é bastante complexo, e o texto do periódico citado constitui uma simplificação grosseira que, exatamente por ter sido assim apresentada, pôde ser manipulada para intencionalmente pôr em dúvida o relato bíblico.
A competente arqueóloga Kathleen M. Kenyon, cujas pesquisas sobre Jericó foram apoiadas pelo Museu Britânico, no capítulo "The Entry into Canaan: The Archaeological Evidence", de seu livro intitulado The Bible and Recent Archaeology, publicado pelo próprio Museu, deixa claro que é praticamente impossível datar a queda dos muros de Jericó ocorrida por ocasião da entrada dos israelitas em Canaã, a partir dos dados arqueológicos existentes, mas indica a existência de vestígios correspondentes ao período de 1425 a 1300 a.C..
Por outro lado, dados cronológicos comparativos permitem fixar para a entrada dos israelitas em Canaã o ano 1405 a.C., conforme se infere da cronologia retroativa desde a monarquia até o período da ocupação de Canaã (Ver Comentário Bíblico Adventista, vol. 2).
Assim, embora não se possa apresentar uma conexão arqueológica efetiva entre uma das datas das sucessivas destruições de Jericó e a data do acontecimento específico narrado pela Bíblia, fica claro que a informação veiculada pelo periódico citado é, na melhor das hipóteses, tendenciosa!
BIBLIOGRAFIA
1 Folha Criacionista no 53, Vários artigos, Sociedade Criacionista Brasileira, Brasília, 1995.
2 Edmond Sollberger, The Babylonian Legend of the Flood, British Museum Publications Limited, London, 1984.
3 British Museum Trustees, The Babylonian Story of the Deluge and the Epic of Gilgamesh, London, 1920.
4 Alexander Heidel, The Babylonian Genesis, University of Chicago Press, Chicago, 1963.
5 Leonard W. King, Legends of Babylon and Egypt in relation to Hebrew Tradition, The Schweich Lectures, London, 1918.
6 Siegfried Júlio Schwantes, O Significado Bíblico da História, SALT, S. Paulo, 1984.
7 Gerald Wheeler, El Dios del Torbellino, Associación Casa Editora Sudamericana, Buenos Aires, 1992
8 Adam Clarke, Bible Commentary.
9 Thomas S. Kuhn, A Estrutura das Revoluções Científicas, Ed. Perspectiva, S. Paulo, 1987.
10 Kathleen M. Kenyon, The Bible and Recent Archaeology, British Museum Publications Limited, London, 1986.