Estudo 5 - Índice Comentários - Comentários Prof. Roberto Azevedo


UMA CRIAÇÃO RECENTE


1 – Como a vida veio a existir na Terra

Sem dúvida, é este um dos temas de mais candente debate em nossos dias, novamente ressaltando as duas posições extremas, correspondentes às duas estruturas conceituais que entraram em choque entre si desde a gradual introdução das idéias evolucionistas no contexto das atividades científicas a partir praticamente dos dois últimos séculos.

Em conexão com o modo pelo qual se aceita que veio a existir vida na Terra, resultam também duas outras posições antagônicas, que têm a ver respectivamente com a questão do tempo decorrido desde a primeira manifestação da vida até nossos dias.

A lição desta semana, não trata de nenhum detalhe correspondente à suposta origem da vida por processos evolutivos – o que, na realidade, fugiria ao escopo das lições do trimestre – mas, nas "Questões para Debate" apresentadas em complementação à lição propriamente dita, é feita uma significativa pergunta: "Como você concilia a história bíblica de uma criação (com c minúsculo) recente com as evidências científicas de uma Criação (com C maiúsculo) por um período muito mais longo?" Essa pergunta, inicialmente, merece pelo menos os seguintes reparos: (1) Teria sido melhor falar em "revelação bíblica", ou "relato bíblico", e não "história bíblica", em face do caráter pejorativo que pode aí assumir a palavra "história" (mesmo porque, em princípio, como já visto anteriormente, o texto dos primeiros capítulos de Gênesis não constitui História no sentido estrito do termo, a ele atribuído no campo das ciências humanas e sociais). (2) Se as "evidências científicas", supostamente coletadas pelos evolucionistas, fossem por eles interpretadas como apontando para uma "Criação", já poderíamos nos dar por satisfeitos! O problema seria apenas o de ajustar os cronômetros... (3) Não existe a mínima possibilidade de conciliar teses que derivam de posições ("doutrinas", ou "filosofias") conflitantes previamente assumidas como verdadeiras, que constituem "estruturas conceituais" que se excluem mutuamente. Qualquer tentativa "concordista" neste sentido está destinada a não ter sucesso algum. Isto posto, resta-nos dar um pequeno vislumbre das dificuldades que tem a teoria evolucionista, aceitando a operação "naturalista" de um acaso cego, para justificar a origem da vida.

– A origem da vida por acaso – uma impossibilidade!

Resume-se a seguir parte do livro de Fernando De Angelis intitulado A Origem da Vida, que tem trechos muito ilustrativos da impossibilidade estatística da origem da vida ao acaso:

"Em 1953, Miller submeteu uma mistura de hidrogênio, água, metana e amônia a descargas elétricas, durante uma semana, e obteve uma mistura de pequenos compostos orgânicos, entre os quais uma discreta quantidade dos dois aminoácidos simples – glicina e alanina – presentes em todas as proteínas. Geralmente, a experiência de Miller é mencionada afirmando-se que nela se formaram "aminoácidos" (e não apenas dois aminoácidos simples), que representam a unidade constitutiva das proteínas, componentes fundamentais da matéria viva. Essa maneira de expor não leva em consideração os obstáculos que se devem superar para sintetizar os aminoácidos em proteínas, nem os obstáculos infinitamente maiores para passar das proteínas às células vivas. Ao leitor é transmitida, assim, a idéia enganosa de que a vida foi reproduzida em laboratório, ou quase!

"À parte a suposição feita com relação à atmosfera ‘primitiva’, na experiência de Miller, e mesmo que, mediante outras experiências fosse encontrado um sistema mais eficaz para produzir aminoácidos ao acaso, haveria ainda numerosos outros problemas a resolver. Por exemplo, além dos 20 aminoácidos que constituem as proteínas, existem outros 150 não protéicos, que, se fossem misturados com os outros, criariam outro obstáculo praticamente insuperável para a formação das proteínas exatas. Seria como se quiséssemos escrever um livro tirando, ao acaso, letras do alfabeto latino que estivessem em uma caixa, juntamente com as letras de outros sete alfabetos!

"Mas os problemas não cessariam aí. Todos os aminoácidos, com exceção da glicina, o mais simples deles, são assimétricos, existindo sob as formas levógira e dextrógira, e quando se formam externamente às células, ao acaso, metade deles é de uma forma, e metade da outra. Em contraste, todas as moléculas fundamentais, em todos os organismos vivos, apresentam a mesma forma – levógira. Em outras palavras, seria de esperar que, se os seres vivos tivessem se originado ao acaso, poderiam ser constituídos com compostos de uma ou de outra forma, ou da mistura de ambas as formas, o que não se verifica!

"Outras dificuldades para a formação das proteínas ao acaso podem ser ilustradas com a resposta à pergunta: Que volume de proteínas seria necessário para compor determinada proteína ao acaso? Escolhendo-se uma proteína das mais simples, constituída apenas de 100 aminoácidos, seria necessário um volume de proteínas equivalente ao de um cubo de 1033 quilômetros de aresta para a obtenção daquela proteína determinada, pelos mecanismos do acaso! Como ilustração, para um foguete que se deslocasse com a velocidade da luz (correspondente a sete voltas em torno da Terra, por segundo), seriam necessários 100 quintilhões de anos para percorrer a distância igual à da aresta desse cubo imaginário!

"Suponhamos que, no caldo primordial, por algum lance de sorte, tivessem sido formadas, além de numerosas outras substâncias semelhantes, também as substâncias que entram na constituição de uma célula. Nem por isso teria sido formada a primeira célula viva. As células são constituídas por milhares de substâncias estritamente coordenadas entre si. Se as substâncias que devem ser justapostas estiverem espalhadas em meio a uma infinidade de outras substâncias semelhantes, é difícil imaginar que exatamente aquelas, e somente elas, se juntassem ao acaso. E, mesmo que elas se juntassem, não teríamos ainda chegado a formar uma célula. De fato, se triturarmos células vivas em um liqüidificador, obteremos todas as substâncias necessárias para a sua constituição, mas não se formarão novamente células, porque os vários componentes não apresentam a "tendência espontânea" de novamente combinar-se entre si. Além do mais, devemos pressupor que no hipotético caldo primordial existissem muitas substâncias venenosas que, mesmo em pequenas concentrações, impedissem a ocorrência da vida. Portanto, mesmo que se tivesse formado uma célula, ela poderia não ter sobrevivido.

"Os que apóiam a abiogênese mantêm em mente essas objeções, mas mesmo os mais bem-informados e equilibrados entre eles tomam as medidas necessárias para remediar o assunto, passando a falar de um evento que é estatisticamente improvável, mas que poderia ter ocorrido como evento praticamente único mediante uma combinação particularmente feliz de circunstâncias. Crick, famoso pela determinação da composição do DNA, exprime-se desta maneira: Um homem honesto, munido de todos os conhecimentos atuais, só pode afirmar, por ora, que, dado o enorme número de condições que seriam necessárias para que o mecanismo pudesse ser posto em ação, a origem da vida parece quase um milagre!

Quando se passa a falar de evento praticamente único, e quase milagre, não mais estamos no campo da ciência, e sim da conjectura ou da especulação!

3 – A necessidade dos longos períodos de tempo

Em artigos publicados pela Folha Criacionista, pode-se obter uma visão abrangente a respeito da história da inserção dos longos períodos de tempo na estrutura conceitual da ciência moderna, sabidamente evolucionista. Apresenta-se a seguir uma síntese de um artigo escrito por autor evolucionista abordando "O Debate Sobre a Idade da Terra", que será de valor para a compreensão da necessidade dos longos períodos de tempo para o embasamento do evolucionismo. (Ver Folha Criacionista, número 49, para maiores detalhes sobre a questão, incluindo considerações sobre os métodos de datação relativa e absoluta).

Mikhail V. Lomonossov foi um dos primeiros cientistas a sugerir, em meados do século dezoito, que a Terra se havia formado independentemente do restante do Universo, estabelecendo um intervalo de centenas de milhares de anos entre os dois eventos. Em 1779, Buffon tentou determinar experimentalmente a idade da Terra – ele cria que a Terra estivesse se resfriando lentamente a partir de um estado inicial aquecido, e estimou a idade da Terra em 75.000 anos, usando em seus cálculos um pequeno globo que simulava a composição da Terra, e efetuando medidas da sua taxa de resfriamento.

Lomonossov e Buffon estiveram praticamente sós na sua "busca rigorosa" da idade absoluta da Terra. Outros naturalistas do século dezoito, ao considerarem a questão, ou deixavam tudo nas mãos do Criador, ou supunham que a Terra e os seus seres vivos simplesmente tinham levado um tempo bastante grande para atingir sua condição atual.

James Hutton caracterizou esse tempo em sua obra clássica A Teoria da Terra, em 1795: "Não encontramos vestígios de um início, e nem perspectivas de um fim". A cronologia dos períodos geológicos, entretanto, despertou a atenção dos contemporâneos de Hutton. Consideravam eles que os estratos sucessivos de rochas e solo em determinado local representavam a ordem em que as camadas se haviam formado. Na década de 1790, William Smith trabalhou em torno dessa conceituação: duas camadas em locais diferentes poderiam ser consideradas como de idade equivalente se contivessem os mesmos fósseis. Extrapolando essas idéias, os naturalistas começaram a fazer um inventário dos estratos e a estimar a duração dos períodos geológicos. Suas estimativas variavam enormemente, pois só conseguiam fazer grosseiras suposições do tempo necessário para a formação das camadas.

Em 1830, Charles Lyell deu um impulso teórico a esse trabalho, insistindo que as formações rochosas e outras configurações geológicas formavam-se, eram erodidas, e formadas novamente, em ritmo constante no decorrer do tempo. Virtualmente, nenhum naturalista aplicou a concepção de Lyell para o cálculo da idade das configurações geológicas; os dados sobre as transformações geológicas eram bastante escassos. Lyell conseguiu, entretanto, persuadir muitos naturalistas a se tornarem uniformistas, isto é, a rejeitarem a idéia de que tivessem ocorrido alterações geológicas catastróficas, ou que a Terra se tivesse formado recente e rapidamente.

Nesse ambiente de idéias, surge a Origem das Espécies de Darwin, postulando a necessidade de longos períodos de tempo para que se pudessem sentir os efeitos da seleção natural na transformação de uma espécie em outra.

Houve um pequeno interregno, entretanto, que sobressaltou os naturalistas já adeptos dos longos períodos de tempo como necessidade para a evolução, quando Lord Kelvin, aplicando métodos físicos quantitativos, demonstrou que a Terra havia se formado "somente" há cerca de 20 a 40 milhões de anos. Kelvin rejeitou, assim, o uniformismo de Lyell, por considerá-lo indemonstrável. O trabalho de Kelvin desagradou os geólogos, que se sentiam satisfeitos com a idéia de tempo ilimitado, e chocou também os biólogos. Darwin e outros haviam postulado que os organismos complexos exigiriam muito mais do que 40 milhões de anos para evoluir. Porém nenhum organismo vivo, nem fossilizado, oferecia qualquer base para um cálculo independente do tempo evolutivo. O calendário da biologia, em última análise, repousava sobre a geologia. Darwin considerou Kelvin como "um fantasma odioso" cuja cronologia tornou-se "uma das mais incômodas preocupações" para a sua tese da evolução das espécies.

Fica claro que se torna necessária a hipótese de períodos geológicos bastante mais extensos do que o estreito limite fixado por Lord Kelvin (por si só já bastante mais extenso que o que pode ser inferido do relato bíblico), para embasar as suposições da evolução das espécies pela seleção natural, o que explica a incessante busca de outros critérios para tentar justificar maiores períodos de tempo para as camadas geológicas.

Com a entrada em cena de Thomas H. Huxley, com a onda evolucionista que resultou de sua propaganda dos trabalhos de Darwin, foi-se firmando o antigo paradigma do uniformismo, e, paralelamente, foi sendo desacreditado o relato bíblico da Criação, bem como do Dilúvio universal de dimensões catastróficas, numa ampla ofensiva anti-criacionista.

Com a descoberta da radioatividade, no decorrer de poucas décadas passou-se a dispor de um novo paradigma para o cálculo da idade da Terra, independentemente das hipóteses uniformistas aplicadas aos processos geológicos, propriamente ditos. Surgiu, assim, a "datação radioativa" com status de palavra final sobre o assunto, levando a números extraordinariamente altos para a idade da Terra, apesar de todas as suposições também indemonstráveis que se situam em seu embasamento teórico.

4 – A Cronologia de Ussher

No livro de Randall W. Younker (autor principal das Lições deste terceiro trimestre de 1999) intitulado La Creación de Dios, editado pela Casa Editora Sudamericana, em Buenos Aires, como leitura auxiliar, são apresentados interessantes dados a respeito das cronologias bíblicas estabelecidas por numerosos estudiosos do assunto. Dentre elas, mereceu destaque a "Cronologia de Ussher", a respeito da qual transcreveremos a seguir pequena parte das considerações feitas por um dos mais célebres evolucionistas da atualidade, Stephen Jay Gould, cujo artigo "Fall in the House of Ussher", publicado no periódico Natural History em 1991, foi traduzido e apresentado na Folha Criacionista número 49.

"James Ussher (1581 – 1656) viveu durante o século mais turbulento da história inglesa. ... Demonstrando sua precocidade e aptidão especial para línguas, Ussher ingressou no Trinity College de Dublin no ano de sua fundação (1594), tendo então apenas 13 anos de idade. Foi ordenado em 1601 e tornou-se professor no mesmo Colégio em 1607, do qual foi também Vice-Chanceler. Com sua nomeação para ser Arcebispo de Armagh em 1625, tornou-se o Primaz da Igreja Anglo-Irlandesa. ...

"Ussher tornou-se o símbolo do autoritarismo antigo e obscurantista por uma razão muito além de sua intenção original. A partir de cerca de cinqüenta anos após o seu falecimento, a maior parte das edições "autorizadas" da Bíblia, no caso, a versão do Rei Jaime, começou a apresentar dados de sua cronologia na coluna destinada a anotações e referências cruzadas usualmente inserida, em cada página, entre as duas colunas do texto. ... Lá estava então, inserida na primeira página do livro de Gênesis, a data indicativa: 4004 a.C. A cronologia de Ussher passou assim a adquirir um status quase canônico nas Bíblias em inglês – e daí a sua atual ignomínia como símbolo do fundamentalismo.

"Hoje, dificilmente se pode encontrar um livro didático de introdução à geologia que não mencione a datação de Ussher como comentário inicial, em uma ou duas páginas obrigatórias sobre antigos conceitos a respeito da idade da Terra. Outras avaliações são também destacadas como boas tentativas, dentro do espírito científico (mesmo que seu valor numérico seja discrepante), mas Ussher é repreendido por sua idolatria bíblica e estultície. ...

"Um desses livros didáticos discute Ussher sob o título "Regra da Autoridade", e mais além o considera no item sobre o "Advento do Método Científico". É feita a afirmação – embora absolutamente inverídica – que a data de 4004 a.C. passou a ser venerada tanto quanto o texto sagrado. Outro livro coloca Ussher no tópico "Antigas Especulações", e também o considera no item "Abordagem Científica". Esses autores afirmam que a data de 4004 a.C., calculada por Ussher, foi assim incorporada ao dogma da Igreja Cristã. ... E continuam ainda: "Por mais de um século, desde então, foi considerado heresia supor mais do que 6000 anos para a formação da Terra".

"Até os verbos usados para descrever os esforços de Ussher estão eivados de desdém. Em um livro é dito que Ussher "pronunciou" sua data; em um outro, ele a "decretou"; em um terceiro, ele "anunciou com grande certeza que ... o mundo foi criado no ano 4004 a.C., no dia 26 de outubro, às nove horas da manhã!". (Na realidade, Ussher disse dia 23 de outubro, a meio-dia, porém descobri três livros com esse mesmo erro na citação da data, indicando que provavelmente eles a copiaram um do outro). O terceiro livro então continua: "O julgamento feito por Ussher sobre a idade da Terra tornou-se verdade evangélica durante 200 anos".

"Muitas afirmações são feitas de forma satírica. Um outro livro ainda – totalizando assim seis diferentes livros, comprovando que eu não estive destacando tolices ditas ao acaso – encara o trabalho de Ussher como uma direta "reação contra as explorações científicas da Renascença". E aborda então o pronunciamento do Arcebispo Ussher da Irlanda, "feito em 1664, de que a Terra foi criada às 9 horas da manhã do dia 26 de outubro de 4004 a.C. (presumivelmente hora do meridiano de Greenwich!)". Ocorre que, em 1664 Ussher já havia morrido há 8 anos, e novamente a citação da sua data para a origem da Terra está incorreta. ...

"Muito bem, mas que sentido pode existir em acusar uma data como impedidora de um sistema posterior que se baseou em princípios completamente distintos? ... Critérios adequados devem ser utilizados levando em conta padrões aceitos nas respectivas épocas. Mediante este julgamento correto, Ussher é digno de nosso respeito.

Dada a extensão do artigo de Stephen Jay Gould, não há condições para ressaltar aqui outros interessantes aspectos por ele mencionados em defesa de Ussher (e não da data fixada para o início da Criação), mas será importante destacar alguns dos parágrafos finais de seu artigo, ao fazer menção a outro livro do Arcebispo, um catecismo intitulado "Um corpo de doutrinas, ou o resumo e a substância da religião cristã":

"Admirei a defesa de sua cronologia feita neste catecismo – palavras simples que ilustram o humanismo básico de seu empreendimento. ‘Como sabemos acerca da Criação?’ pergunta ele. E responde: ‘Não só pelos claros e multiformes testemunhos das Sagradas Escrituras, mas também pela luz da razão bem dirigida.’ Sua principal preocupação, podemos notar, não é com outras cronologias da epopéia humana, mas com a noção não-histórica aristotélica da eternidade: ‘O que dizer então para Aristóteles, tido por tantos como o Príncipe dos Filósofos, que se empenha para provar que o mundo é eterno?’ Ussher responde sua própria pergunta defendendo a majestade de Deus em contraposição a ser Ele um mero movimentador de matéria eterna, pois ‘Aristóteles retira de Deus a glória de Sua criação, e ainda não Lhe consigna nenhuma tarefa a mais além da movimentação das esferas, às quais ele O prende mais como servo do que como Senhor’.

"Encerro com um apelo final a favor do julgamento das pessoas de conformidade com seus próprios critérios, e não por padrões posteriores que possivelmente elas não possam vir a conhecer. Deploramos Ussher ter encolhido tanto a Criação – meros seis dias onde estimamos bilhões de anos para a evolução. Por outro lado, Ussher temia que seis dias pudessem parecer muito, na opinião de seus contemporâneos, pois, por que Deus, que pode fazer tudo em um instante, teria de alongar a Sua obra? ... Ussher apresenta uma lista de respostas, das quais uma chamou-me a atenção por sua elegância e por sua declaração incisiva quanto à necessidade didática de uma ordem seqüencial – uma razão tão boa quanto a melhor que se poderia divisar para estabelecer uma cronologia! "Para nos ensinar a melhor compreender as Suas obras; da mesma forma como um adulto ensinaria uma criança perante um texto escrito – lendo uma linha de cada vez, e não todo o texto de uma só vez."

A exposição feita por Gould não deixa de ser interessante também pelo fato de apontar para o dogmatismo de autores que, propositada ou inconscientemente, mas sempre sem se ater a uma posição imparcial e justa que deveriam assumir, como educadores, partem de atitudes preconcebidas, deformando as informações disponíveis, para tentar demonstrar suas pressuposições. É este um círculo verdadeiramente vicioso, e que se reproduz com freqüência nos debates sobre as origens.

Sem dúvida, o evolucionista Stephen Jay Gould nos dá um exemplo de moderação que também nos ensina a não sermos muito (nota da pergunta 1 da Lição) dogmáticos... O próprio trabalho de Ussher pode ser interpretado de formas distintas!

5 – A lista dos reis sumérios

Na nota da pergunta 3, é feita referência às listas dos reis do antigo Oriente Médio, ressaltando o contraste entre elas e as genealogias bíblicas. Dentre tais listas, sobressai-se a "lista dos reis sumérios", que, por apresentar termos de vida extremamente longos para os reis, sua compatibilização com o relato bíblico tem constituído sempre um problema. É este também mais um exemplo da dificuldade e complexidade para a devida compreensão das genealogias dos povos antigos.

De fato, a lista dos reis sumérios registra a seqüência dos reis da Suméria, com a duração de seus reinados, começando do início da história, à época em que "o primeiro reinado desceu dos céus", e estendendo-se até o reinado de Sin-magir (1827-1817 a.C.), no final da dinastia de Isin. A lista caracteriza-se pela duração extremamente longa dos diferentes reinados, especialmente dos primeiros reis. Cerca de um quarto de milhão de anos é atribuído aos oito primeiros reis anteriores ao Dilúvio, e mais 25 mil anos para as primeiras duas dinastias após o Dilúvio.

É interessante destacar a similaridade entre a lista dos primeiros reis da Suméria e a lista dos patriarcas bíblicos anteriores ao Dilúvio, cuja longevidade também é digna de nota. Estudos recentes têm mostrado a compatibilidade do registro sumério com o registro bíblico, apontando para uma fonte comum de informação para ambos os documentos. Entendemos, na nossa estrutura conceitual criacionista, que o relato bíblico é uma revelação precisa, embora sucinta, das linhagens de Adão, no mundo antediluviano e posterior. Por sua vez, a lista suméria é coerente com outros documentos históricos, como os épicos da Criação e do Dilúvio registrados na rica literatura daquela civilização, tendo chegado até nós de forma surpreendente através dos fragmentos obtidos nas pesquisas arqueológicas dos dois últimos séculos. E o fato a ser destacado é que, não obstante a aparente discrepância entre o quase quarto de milhão de anos da lista suméria e os menos de 10.000 anos da soma dos períodos de vida dos patriarcas constantes do relato bíblico, existe perfeita identidade entre a cronologia dos patriarcas bíblicos e a lista dos reis sumérios anteriores ao Dilúvio.

De fato, recente pesquisa divulgada pela Sociedade Criacionista Australiana sobre o assunto esclarece que a citada aparente discrepância entre o total de 241.200 anos atribuídos aos oito reis sumérios anteriores ao Dilúvio (a lista contém só oito reis, excluindo o primeiro homem e o herói do Dilúvio), e os 8.575 anos de vida dos correspondentes oito patriarcas bíblicos, fica eliminada se o cálculo dos números da lista suméria for feito na base decimal, e não na sexagesimal, como tem sido feito até agora. O artigo sobre o assunto, publicado no Technical Journal da Sociedade, desce a interessantes detalhes relativos ao sistema misto de numeração dos sumérios, que incorpora a notação sexagesimal juntamente com a notação decimal.

O fato de que elementos numéricos do relato bíblico antediluviano aparecem de forma tão clara no contexto de um documento histórico secular, como a lista dos reis sumérios, constitui uma forte evidência a favor da historicidade dos primeiros capítulos do livro de Gênesis.

Assim, cai por terra, fragorosamente, mais um argumento que até agora tinha sido usado para alongar o período histórico, dentro das exigências da estrutura conceitual evolucionista!

6 – Contemporaneidade dos patriarcas bíblicos

A Folha Criacionista números 54 e 55 apresenta interessante gráfico ilustrativo da contemporaneidade dos patriarcas bíblicos, até os tempos de José, filho de Israel, inserido no artigo de autoria de Walbert de Araújo Linhares, intitulado "Genealogia dos Patriarcas".

Fica claramente visível que não só Adão e Enoque foram contemporâneos por 308 anos, como também Adão e Lameque (pai de Noé) foram contemporâneos por 58 anos. E, ainda, que Noé foi contemporâneo de Abraão por 58 anos. Sem dúvida, esses dados permitem-nos formar uma imagem cronológica dos períodos de convivência dos patriarcas, com a transmissão do testemunho histórico de pai a filho até os tempos de Abraão, que atinge a época da primeira dinastia de Ur, na Mesopotâmia, da qual existem registros escritos dando evidência do elevado nível de desenvolvimento então atingido pela civilização. Até mesmo a religião suméria, em seus primórdios, apontava para a pureza original de suas raízes. Entretanto, na época de Abraão, já se fazia sentir a grande degradação sofrida pela revelação transmitida no decorrer dos séculos, pelo que foi ele chamado para a tarefa especial de preservar o conhecimento do Deus verdadeiro, tornando-se o depositário das verdades reveladas que chegaram até nós no cânon bíblico.

7 – Ciência, Criacionismo e Evolucionismo

No "Estudo Indutivo da Bíblia" é levantada a questão da ciência e da fé com relação ao Criacionismo e o Evolucionismo. A esse respeito, sugerimos a leitura do artigo "Princípios Básicos da Ciência, Criacionismo e Evolucionismo" publicado na Folha Criacionista número 59, do qual extraímos os seguintes trechos:

"O Criacionismo não tem, e nem alega ter, embasamento no Método Científico, pois não tem como ser submetido à prova da hipótese. Ele se baseia, na realidade, em conceitos básicos que são aceitos como verdadeiros pela fé em uma revelação. Por outro lado, muito embora o Evolucionismo alegue ter embasamento científico, também não tem como ser submetido à prova da hipótese, pois se baseia em conceitos que são admitidos como verdadeiros tão-somente por um ato de fé, e que não têm como ser demonstrados, por constituírem um modelo teórico que faz suposições impossíveis de serem comprovadas. Como exemplo de hipóteses incomprováveis, pode-se mencionar a origem de uma primeira célula viva, ou a transformação das espécies no nível de macroevolução.

"Dessa forma, do ponto de vista da filosofia da ciência, doutrinas como o Evolucionismo, tal qual ele é apresentado na maior parte das vezes, e também o Criacionismo, não podem ser adjetivadas como "científicas", por localizarem-se no âmbito das conjecturas. De fato, os acontecimentos aos quais ambas as doutrinas se referem situam-se numa faixa de tempo inacessível a qualquer técnica de observação experimental, ou de procedimento racional, dentro dos parâmetros do Método Científico".

Ambas as "doutrinas" constituem, na realidade, "estruturas conceituais", ou seja, posições filosóficas assumidas a priori, para a aplicação do Método Científico com vistas à compreensão dos objetos que nos circundam. Esta aplicação, mesmo que bem-sucedida, dentro das suas possibilidades, jamais convalidará "cientificamente" qualquer das duas doutrinas.

A favor do Criacionismo, entretanto, está o seu embasamento em uma revelação divina, consistente e harmônica com uma visão de mundo centrada em um Criador que executa o Seu planejamento em benefício dos seres por Ele criados.


BIBLIOGRAFIA

1 – Angelis, Fernando De, A Origem da Vida, Sociedade Criacionista Brasileira, Ed. UNISA, 1998.

2 – Badash, Lawrence, "O Debate Sobre a Idade da Terra", Scientific American, agosto 1989, in Folha Criacionista número 49.

3 – "Datação Absoluta e Relativa", Nota Editorial da Sociedade Criacionista Brasileira, Folha Criacionista número 49.

4 – Younker, Randall W. (autor principal das Lições deste terceiro trimestre de 1999), La Creación de Dios, ed. Casa Editora Sudamericana, Buenos Aires, 1999.

5 – Gould, Stephen Jay, "Fall in the House of Ussher", Natural History, vol 11/91, in Folha Criacionista número 49.

6 – López, Raúl Ernando, "The Antediluvian Patriarchs and the Sumerian King List", CEN Technical Journal, 12 (3) 1998, pp. 347-357.

7 – Linhares, Walbert de Araújo, "Genealogia dos Patriarcas", Folha Criacionista números 54 e 55.

8 – Vieira, Ruy C. C., "Princípios Básicos da Ciência, Criacionismo e Evolucionismo", Folha Criacionista número 59.


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