Estudo 9 - Índice Comentários - Comentários Prof. Roberto Azevedo
A CRIAÇÃO E O DILÚVIO |
1 Etimologia da palavra dilúvio
"Dilúvio" em Português deriva do Latim diluvium, diluvii, e também diluvio, diluvionis, derivam diretamente do verbo diluvio, diluviare, "inundar", "alagar". Os dois substantivos, conforme os dicionaristas, se referem ao "dilúvio universal", ou "dilúvio de Noé", e são cognatos de diluvies, diluviei, "inundação", "enchente", "dilúvio", "cataclismo". Os três substantivos considerados, e o verbo, têm a mesma raiz do verbo diluo, diluere, "desfazer", "delir", "gastar", "lavar", "tirar lavando", "diluir", "afogar", "apagar", "riscar", "enfraquecer", "diminuir". Este verbo diluo, diluere é forma composta do verbo luo, luere, "lavar", "banhar", "regar", "purificar, apagar, desviar, com expiações", "pagar", "satisfazer", "remir", "resgatar", "expiar", "sofrer".Na realidade existem três verbos luo,luere, de origem e significado distintos.
O primeiro tem o sentido de "sujar", "enlamear", e permaneceu no substantivo lues, luis, "corrupção do ar", "enfermidade contagiosa", "peste", "flagelo", "calamidade", e, na forma composta, no verbo polluo, polluere, "molhar", "umedecer (sujando)", "poluir", "corromper", "macular", "profanar".
O segundo tem o sentido de "lavar", já considerado inicialmente, estreitamente ligado aos verbos lavo, lavare, e lavo, lavere, ambos com o sentido de "lavar", "banhar", "purificar", curiosamente tendo como forma derivada pollubrum, "bacia destinada às cerimônias de purificação", proveniente de um outro verbo polluo, polluere com o sentido de "purificar", caído em desuso provavelmente pela confusão com o homônimo anteriormente citado. Derivado deste segundo verbo é também o substantivo lustrum, que designa uma cerimônia pública de purificação realizada de cinco em cinco anos em Roma (em Português, "lustrar" é "purificar com água lustral") de onde também a sua acepção de "intervalo de cinco anos", ou "lustro".
O terceiro tem o sentido de "desligar", "desobrigar", "pagar", "cumprir", "isentar", "absolver", e liga-se ao verbo solvo, solvere, "dissolver", "desunir", "desunir as partes de um composto", "apagar (um crime)", "eximir (de uma dívida)", "pôr termo a", "destruir", também derivado de luo, luere com a adição do prefixo se (transformado em so pela influência do v da sílaba seguinte). São compostos de solvo, solvere os verbos absolvo, absolvere, "desatar", "desprender", "resgatar", "remir" (e o advérbio absolute, "absolutamente", "perfeitamente"); dissolvo, dissolvere, "dissolver", "desfazer", "desfazer uma acusação", "destruir", (e o substantivo dissolutio, dissolutionis, "dissolução", "ruína", "aniquilamento"), resolvo, resolvere, "resolver", "deslindar", "dissolver", "reduzir a líqüido", "dissipar" (e o substantivo resolutio, resolutionis, "decomposição", "dissolução geral", "fim do mundo)".
Este apanhado da etimologia da palavra "dilúvio", envolvendo suas raízes, compostos e derivados, apresenta um quadro bastante ilustrativo dos vários aspectos envolvidos no episódio do dilúvio universal relatado no livro de Gênesis no plano físico, inundação cataclísmica, flagelo, calamidade, destruindo, afogando, desfazendo, desunindo os próprios continentes, trazendo o fim de um mundo que ainda guardava bastante de sua perfeição original; e no plano moral, algo como uma cerimônia pública de purificação, pondo termo a uma situação de dissolução geral, apagando o passado, expiando, purificando, resgatando a humanidade e levando-a novamente ao padrão moral anterior à degradação generalizada dos dias que antecederam essa intervenção miraculosa de Deus em nosso planeta.
2 O dilúvio e as leis da natureza
Na Nota da pergunta 7 da Lição é feita a afirmação de que "Hoje, naturalmente, a maioria dos cientistas, inclinando-se a crer nas leis da natureza, negaria a possibilidade de um dilúvio universal". Esta afirmação deve ser considerada de forma mais crítica, pois poderá aparentemente ser interpretada como indicativa de que as "leis da natureza" não permitiriam a existência de um dilúvio universal. Da mesma maneira, deve-se lembrar que cientistas não se inclinam "a crer nas leis da natureza", mas desenvolvem suas atividades procurando encontrar as leis que regem o comportamento da natureza. E nessas suas atividades, freqüentemente assumem a priori certas estruturas conceituais ou paradigmas, para reger a sua busca da verdade científica. A História da Ciência está plena de acontecimentos que caracterizaram as chamadas "revoluções científicas" ocorridas em função da substituição de paradigmas anteriormente aceitos de forma inquestionável, e que não mais puderam continuar a ser aceitos em virtude de novos fatos e evidências.
Inicialmente, pode-se depreender que a afirmação em questão tem a ver, em princípio, com a contraposição entre as estruturas conceituais uniformista e catastrofista. Como já visto em comentários feitos anteriormente, desde Lyell e Hutton, a geologia passou gradativamente a adotar a posição uniformista, deixando de admitir a possibilidade de eventos catastróficos na história do planeta Terra. Não obstante ter essa posição uniformista chegado a adquirir "status" de verdade inquestionável, as evidências que foram sendo acumuladas levaram hoje a uma impressionante guinada no sentido de aceitar a possibilidades de acontecimentos catastróficos locais, regionais, e mundiais, como se pode verificar na literatura científica mais moderna.
Dentre as posições hoje aceitas para explicar certos eventos geológicos como a extinção em massa dos tão falados dinossauros encontra-se a que atribui como causa desse acontecimento evidenciado no registro fóssil, o impacto de um asteróide de grandes proporções sofrido pela Terra. Numerosos outros eventos, de caráter mais ou menos amplo, têm sido explicados também, hoje em dia, pelos cientistas, como tendo origem cataclísmica, tendo passado assim a ser aceita gradativamente a estrutura conceitual catastrofista no âmbito da geologia. Assim, a possibilidade de ter existido um dilúvio universal passou também a ser considerada como algo factível à vista das mesmas leis da natureza que, sob a estrutura conceitual uniformista, eram trazidas à baila para negar a possibilidade de um evento como esse.
Conclui-se que não é por uma inclinação do cientista para crer nas leis da natureza que ele chega a negar a possibilidade do dilúvio universal, mas sim pela sua aceitação implícita do viés uniformista, e rejeição simultânea do posicionamento catastrofista. Devemos estar sempre alertados para o fato de que uniformismo e catastrofismo não constituem ciência, mas sim apenas estruturas conceituais que são admitidas a priori para o desenvolvimento das atividades de pesquisa científica.
3 Ideologias e violência
No comentário da lição de Domingo, falando de um dilúvio universal, é feita menção, entre parênteses, ao título completo da obra magna de Darwin "A Origem das Espécies por Meio da Seleção Natural, ou a Preservação das Raças Favorecidas em sua Batalha pela Vida" e é feita a seguinte observação: "No desenvolvimento de suas filosofias, Marx, Nietzsch, Lenin, Stalin, e Hitler inspiraram-se nas idéias de Darwin sobre as raças superiores e a sobrevivência do mais apto".
Transcrevem-se em seguida trechos do artigo de Bolton Davidheiser publicado na Folha Criacionista número 2, em 1972, intitulado "Darwinismo Social", onde o autor destaca que a teoria de Darwin da sobrevivência do mais apto tornou-se uma moda que dirigiu o pensamento ocidental no final do século dezenove, tornando-se também uma doutrina conveniente para justificar várias teorias econômicas e políticas desde o extremo do capitalismo até o extremo do comunismo.
Assim, por exemplo, no extremo do capitalismo, podem ser reproduzidas as seguintes declarações ilustrativas:
"Em sua autobiografia, Andrew Carnegie, que fez sua fortuna na siderurgia, descreve sua conversão à evolução ao ler Darwin e Spencer: Lembro-me que surgiu abundante luz e tudo se esclareceu. Não só me libertei da teologia e do sobrenatural, mas encontrei a verdade da evolução. ... O homem não foi criado com um instinto de degradação própria, mas elevou-se das formas mais inferiores para as superiores. "
"John Rockfeller declarou que ... o crescimento de uma grande empresa é meramente a sobrevivência do mais apto ".
Robert E. D. Clark comenta que a evolução, em síntese, dá ao executor do mal o respeito de sua consciência. O comportamento mais inescrupuloso com relação a um competidor pode assim ser racionalizado; o mal pode ser chamado de bem."
O evolucionismo, de fato, acalmou as consciências não somente dos grandes homens de negócios nos seus tratos com os competidores, mas também ajudou os que tiravam vantagens das classes mais desfavorecidas. Esforços para melhorar as condições de vida e de trabalho dos pobres, das mulheres e das crianças, tiveram a oposição das classes dirigentes com base em que isso seria contrário ao princípio da evolução, pois a prosperidade do rico e a condição miserável do pobre nada mais eram do que a operação do princípio "científico" da sobrevivência do mais apto. Aliás, a grande aceitação de "A Origem das Espécies" de Darwin na Inglaterra vitoriana, deveu-se à justificativa aparentemente encontrada para validar o comportamento social e político das classes dirigentes na sua exploração das classes menos favorecidas, o que ainda hoje constitui o quadro predominante em escala global no mundo em que vivemos!
O evolucionismo darwinista também ofereceu base supostamente científica para lutas raciais, como expõem Walbank e Taylor:
"A aplicação pseudo-científica de uma teoria biológica à política ... constituiu possivelmente a forma mais pervertida do darwinismo social. ... Ela conduziu ao racismo e ao anti-semitismo, e foi usada para mostrar que somente nacionalidades e raças superiores eram aptas a sobreviver. Assim, acharam-se entre os povos de língua inglesa os campeões da opressão do homem branco, uma missão imperialista levada a efeito pelos anglo-saxões. ... Semelhantemente, os russos pregaram a doutrina do pan-eslavismo, e os alemães a do pan-germanismo."
A teoria da evolução darwinista também foi usada por militaristas para a glorificação da guerra, por crerem que o resultado de uma guerra é determinado pelo princípio da sobrevivência do mais apto, como destacado nas declarações seguintes:
Heinrich von Treitsch, militarista prussiano: "A grandeza da guerra está na aniquilação total do homem fraco em benefício da grande concepção do Estado. ... Em guerra, o joio é separado do trigo.
Friedrich Nietzsch, filósofo alemão que se destacou pelo seu desprezo ao cristianismo: "Você diz que uma boa causa santifica a guerra, mas eu digo que uma boa guerra santifica qualquer causa."
Walter Wallbank e Alastair Taylor, historiadores preocupados com o passado e o futuro: "Semelhantemente ridicularizava (Nietzsche) a democracia e o socialismo, por protegerem o fraco e menosprezado, e se oporem ao forte. O darwinismo social e o culto antidemocrático da força, como pregados por advogados como Nietzsch, lançaram os fundamentos do fascismo, que um dia iria levar o mundo à mais terrível convulsão de sua história."
A revisão crítica dos escritos de Hitler e dos biólogos alemães contemporâneos mostra que a teoria e os livros de Darwin exerceram grande influência sobre as políticas nazistas, conforme ressaltado por Jerry Bergman, escritor criacionista: "Na formulação de suas políticas raciais, Hitler baseou-se fortemente no modelo da evolução darwinista, especialmente nas elaborações procedidas por Spencer e Haeckel. Essas políticas culminaram na solução final, o extermínio de aproximadamente seis milhões de judeus, e outros quatro milhões de pessoas que pertenciam às raças inferiores, assim consideradas pelos cientistas alemães."
No extremo oposto do comunismo, em 1861 Marx escreveu a Engels afirmando que "o livro de Darwin é muito importante e serve-me como base, na seleção natural, para a luta de classes na História." E a História aí está para comprovar o resultado da política comunista levada ao extremo da crueldade pelos dirigentes soviéticos e chineses, levando ao sofrimento e à morte outros tantos milhões de pessoas em nome de uma doutrina social darwinista.
Resta-nos fazer a comparação entre Gênesis 6: 11 "A terra estava corrompida à vista de Deus, e cheia de violência", e S. Mateus 24: 37 e 33 "Pois assim como foi nos dias de Noé, também será a vinda do Filho do homem", e "Assim também vós: quando virdes todas estas coisas, sabei que está próximo, às portas".
4 Posições científicas seculares e evidências contraditórias
No comentário da lição de segunda-feira é feita uma pergunta no Estudo Indutivo da Bíblia, que merece algumas considerações. Trata-se da pergunta: "Como devemos relacionar-nos com as evidências contraditórias, quando as posições científicas seculares parecem questionar nossa fé?"
Devemos estar alertados, inicialmente, para o fato de que distintas posições científicas ou não estarão sempre presentes em todas as ocasiões e em todos os âmbitos de nossa vida em sociedade, questionando nossa fé. Afinal, os que não têm a mesma fé que nós temos, firmada na revelação bíblica, terão outros fundamentos sobre os quais construirão a sua fé própria. A aceitação dos fundamentos sobre os quais todos nós vamos construir nossa "visão de mundo" será sempre um ato de fé. Já foi destacado, em comentários anteriores, que cada um de nós aceita a priori "estruturas conceituais", ou "paradigmas", em função de um complexo de circunstâncias, através das quais passamos a analisar os fatos e as evidências, procurando respostas a perguntas de nosso interesse específico. Portanto, não devemos nos espantar com a efetivação eventual de questionamentos relativos à nossa fé, de confrontos entre a nossa fé e as distintas modalidades de fé (religiosa ou secular) aceitas por outras pessoas.
Isto posto, entendendo a razão pela qual questionamentos podem surgir, e fazendo também distinção entre fatos e interpretações apresentados nesses questionamentos, resta-nos procurar respeitar os pontos de vista contrários aos nossos, tentando esclarecer a verdadeira natureza do porquê de eventuais controvérsias, normalmente resultantes da aceitação prévia de distintas estruturas conceituais, por verdadeiros atos de fé.
Quanto à referência a "evidências contraditórias", melhor teria sido dizer "evidências interpretadas de forma contraditória", pois na verdade as evidências entre si não se contradizem nem deixam de se contradizer, mas sim a sua interpretação!
5 Dilúvio e Geologia
Sobre a relação entre o relato bíblico do dilúvio e as evidências geológicas que levaram à concepção da chamada "coluna geológica", recomendamos a leitura do artigo do geólogo Dr. Nahor Neves de Souza Júnior, intitulado "Um modelo Geológico para a Curta História do Planeta Terra", publicado na Folha Criacionista número 49. Destacamos desse artigo o trecho seguinte:
"Na verdade é perfeitamente possível correlacionar a cronologia bíblica, referente ao período do dilúvio, à própria geocronologia (Quadro 1). Deve ser lembrado, no entanto, que após Noé ter saído da arca, a superfície da Terra ainda se encontrava sob os efeitos secundários do dilúvio, em um processo gradual de estabilização. Nesse período pós-dilúvio, os fenômenos geológicos podem ter-se manifestado, localmente, com intensidade superior à verificada atualmente. Sendo assim, as centenas de milhões de anos, convencionalmente atribuídas às eras geológicas, deverão ser reduzidas a meses (pouco mais de um ano) para o dilúvio propriamente dito, e a dezenas, ou ainda algumas centenas de anos para os seus efeitos secundários (Pleistoceno e Holoceno)." [Apresenta-se na última página deste comentário o Quadro citado. Ver também o Quadro apresentado no número 59 da Folha Criacionista, à página 47].
Quanto ao processo gradual de estabilização citado acima, é interessante mencionarmos que o desenvolvimento da meteorologia verificado após a introdução dos supercomputadores, e dos conceitos matemáticos relativos à "teoria do caos", tem levado à concepção dos fenômenos meteorológicos atualmente existentes, como característicos de uma fase intermediária entre dois patamares de estabilidade, reforçando a tese de uma grande instabilidade provocada no passado, por algum evento de escala cósmica, como transparece da ilustração seguinte apresentada por Edward N. Lorenz, em seu livro "A Essência do Caos":
"Imagine uma enorme criatura extraterrestre que desça próximo à Terra, estenda um remo gigante, e mexa na atmosfera por um breve intervalo de tempo antes de desaparecer. Afastando completamente a possibilidade de um efeito desastroso sobre os seres vivos da Terra, qual será o efeito sobre a atmosfera? ... A criatura alienígena produzirá um novo estado ... porém, como em qualquer sistema dinâmico dissipativo, os efeitos transitórios serão definitivamente amortecidos, e o comportamento voltará ao normal."
Novas concepções nos campos da geologia e da meteorologia, começam, assim, a trazer importantes contribuições para a compatibilização dos modelos científicos estabelecidos para a explicação dos eventos ocorridos nos primórdios da história da Terra, com a revelação contida na Bíblia. Tudo indica que estamos à beira de uma nova e grandiosa revolução científica que levará à rejeição dos paradigmas evolucionistas tais como hoje são eles aceitos pela maior parte do estamento científico. O estudo das extinções em massa, por exemplo, restituiu credibilidade ao catastrofismo, ao aceitar como sua causa o provável impacto de um asteróide com a Terra, com efeitos cataclísmicos universais. (Lembremos que em Grego nossa palavra "dilúvio" é cataclysmos).
BIBLIOGRAFIA
1 Michel Bréal e Anatole Bailly, Dictionnaire Étymologique Latin. Librairie Hachette, Paris, 1918. 2 W. Mahlert, Diluviologia e uniformismo na Geologia uma revisão crítica. Sociedade Criacionista Brasileira, Folha Criacionista, número 44, Brasília, 1991. 3 Bolton Davidheiser, Darwinismo Social. Sociedade Criacionista Brasileira, Folha Criacionista número 2, Brasília, 1972. 4 Jerry Bergman, A eugenia e o desenvolvimento da política racial nazista. Sociedade Criacionista Brasileira, Folha Criacionista número 48, Brasília, 1993. 5 Nahor Neves de Souza Jr., Um modelo geológico para a curta história do planeta Terra. Sociedade Criacionista Brasileira, Folha Criacionista número 49, Brasília, 1993. 6 Edward N. Lorenz, A Essência do Caos, p. 121. Editora da Universidade de Brasília, Brasília, 1996.
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