CRIACIONISMO

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Criados à Imagem de Deus

Jorge Luiz da Silva


Quando o Gênesis foi escrito, outros relatos da Criação já eram bastante conhecidos pelos povos da antigüidade. Graças às descobertas arqueológicas, temos cópias de alguns desses mitos, como, por exemplo, os de Atrahasis e Enuma Elish, mencionados na introdução. Há fortes indícios literários na história da Criação do Gênesis que sugerem que ela foi produzida tendo essas outras histórias em mente, com o deliberado objetivo de contrapor-se e corrigir o que ensinavam.

Monoteísmo

Uma importante característica do Gênesis é a desmistificação dos elementos naturais – o Sol, a Lua, as estrelas, as montanhas, os rios, o mar, os animais, os vegetais, etc. – que entre os povos do Oriente Médio Antigo eram venerados como deuses. Para os babilônios, a água doce e a água salgada eram, respectivamente, os deuses Apsu e Tiamat. Para alguns egípcios, o Sol era o deus Aton e, para outros, o deus Ra. No curioso ordálio do rio, estabelecido pelo código de leis de Hamurabi, o réu deveria ser jogado ao rio Eufrates que, como deus, julgaria sua culpa ou inocência (se o réu saísse do rio com vida, era considerado inocente). As montanhas, o íbis, o fogo, a cobra, o crocodilo: todos eram reverenciados, por um povo ou outro, como deuses. O politeísmo da época era tão disseminado que influenciava até mesmo a escrita. Tanto o cuneiforme da Babilônia quanto os hieróglifos egípcios usavam em sua escrita sinais para identificar os "deuses". Na Mesopotâmia, a primeira letra das palavras ‘rio’ e ‘montanha’, por exemplo, era um sinal que significava ‘deus’. Uma tradução literal dessas palavras poderia, então, ser: ‘deus-rio’, ‘deus-montanha’. Desse modo, até mesmo o nome dos elementos naturais já era um discurso politeísta. O Gênesis evita cuidadosamente essa divinização. Embora o hebraico possua uma palavra específica para designar o Sol (shemesh) e outra específica para designar a Lua (yareha), elas não são usadas em Gênesis. O Sol e a Lua são chamados simplesmente de ‘luzeiro maior’ e ‘luzeiro menor’ (Gên. 1:14-18). Eles não são deuses, mas apenas criaturas inanimadas. Só mais tarde, quando a preocupação do escritor não era mais apologética, os dois astros são chamados por seu nome próprio: "Ele fez os grandes luminares... o Sol (shemesh) para governar o dia... a Lua (yareha) e as estrelas para governar a noite..." (Sal. 136:7-9).

Na literatura do Oriente Médio Antigo, os deuses geravam outros deuses. Cria-se que o próprio Marduk, deus principal dos babilônios, era filho de Ea e Damkina. O Gênesis, porém, enfaticamente ensina que o Deus criador de tudo é o único Deus.

Criação Ex Nihilo

Imagine dois pequenos círculos desenhados numa folha de papel, separados um do outro por 22 cm. Se cada centímetro representar 10 milhões de quilômetros, seu desenho estará representando a distância aproximada entre a Terra e o Sol! Depois do Sol, a estrela mais próxima da Terra é Alpha Centaurus, que fica ali pertinho, a 38.400.000.000.000 km. de distância! Contudo, existem estrelas muito mais distantes. As estimativas mais conservadoras dizem que, só em nossa galáxia, temos mais de 100 bilhões deestrelas! E que, no Universo todo, existem mais de 100 bilhões de galáxias!!! De onde teria vindo essa inimaginável infinitude?

A ciência está hoje convencida de que o Universo de fato "teve uma origem" (Paul Davies. The Mind of God (New York: Touchstone, 1992), 40) a partir virtualmente do nada, com uma explosão batizada como "Big Bang". O ponto de partida teria sido "quando o Universo era infinitesimalmente pequeno e infinitamente denso" – Stephen Hawking. A Brief History of Time (New York: Bantam, 1996) pág. 14. A partir desse minúsculo núcleo de matéria, de repente e inexplicavelmente, o Universo começou a se expandir, e continua se expandindo até hoje. Considerando-se o tamanho, complexidade e ordem do Universo, essa é uma tremenda declaração de fé! Por todas a leis da física que se conhecem, uma grande explosão como essa só produziria um caos e, contudo, vivemos num cosmos – incrivelmente belo, complexo e em ordem! Além disso, como bem lembrou o astrofísico Paul Davies, "mesmo se pudéssemos explicar o presente estado do Universo em termos de seu estado há um bilhão de anos, teríamos nós realmente conseguido qualquer coisa, exceto empurrar o mistério um bilhão de anos para trás?" (Davies. Ibidem, 39.)

A questão do Dr. George Smoot, citada na Introdução, permanece: "O que ocorreu antes do Big Bang?... A questão do que havia antes do Big Bang intriga a alma." Veja, 09/12/92, págs. 8 e 10. Nos mitos da antigüidade não se concebia a origem de coisa alguma a partir do nada. A rigor, esses mitos não eram histórias da criação do cosmos (cosmogonia), mas apenas de como o cosmos foi organizado ou de como os deuses vieram a existir (teogonia). Em outras palavras, segundo esses mitos, tudo o que hoje existe foi criado a partir de realidades pré-existentes. No Enuma Elish, por exemplo, o cosmos é criado com o corpo de Tiamat. Em franca oposição a isso, o Gênesis diz que a realidade foi trazida à existência do nada (no latim: ex nihilo), pela palavra de Deus. Uma das características mais marcantes de Gênesis 1 é a frase hebraica vayo’mer ‘elohim yehiy... vayehiy ("e disse Deus haja... e houve...") e outras frases semelhantes. Contrária à visão de mundo de sua época, a Bíblia assevera que tudo começou a partir do nada, repentinamente, mas sem mistério quanto ao que havia antes do ponto inicial: "No princípio...Deus"! (Gên. 1:1)

Estilo Literário

O estilo literário largamente utilizado pelos escritores do Antigo Oriente Médio tem sido caracterizado como ‘épico’, por tratar-se de histórias extraordinárias de heróis, deuses e semi-deuses míticos. Esse épicos eram recitados, vez após vez, nos cultos pagãos, como forma de reproduzir os efeitos dos acontecimentos a que se referiam. A crença pagã, expressa nos épicos, é de que o mundo e seus habitantes são prisioneiros de um eterno movimento cíclico. É significativo, contudo, que a Bíblia – especialmente o Gênesis – tenha sido a única obra da antigüidade escrita em prosa! – Robert Alt. "Sacred History and Prose Fiction", em The Creation of Sacred Literature, Richard E. Friedman, ed. (Berkeley: University of California, 1981), pág. 8.

"Os escritores hebreus da Antigüidade propositalmente cultivaram e desenvolveram a narrativa em prosa para substituir o gênero épico que, por seu conteúdo, estava intimamente ligado com o mundo do paganismo e parece ter tido um lugar especial nos cultos politeístas. A recitação dos épicos equivalia à reedição dos eventos cósmicos como se faz na magia representativa. No processo de total rejeição das religiões politeístas e suas expressões rituais no culto, os cânticos épicos e também o gênero épico foram expurgados do repertório dos autores hebreus." Shemaryahu Talmon. "The Comparative Method in Biblical Interpretation" – Principles and Problems. Göttingen Congress Volume (Leiden, 1978), pág. 354.

O Gênesis rejeita a idéia fatalista da vida como sendo uma eterna repetição cíclica do passado, e apresenta-a como um movimento linear rumo ao futuro. A vida humana move-se de um ponto para outro, segundo um bem definido propósito revelado por Deus. Cada novo passo não está condenado a ser uma repetição do passado, mas abre-se para novas e alvissareiras possibilidades. A prosa foi o gênero literário escolhido pelos escritores bíblicos porque, evidentemente, só ela é capaz de imprimir um caráter histórico – não mítico ou mágico – aos eventos que relata. Quando se diz que "houve uma fome na terra e Abrão desceu ao Egito para aí ficar, pois a fome assolava o país" (Gên. 12:10), está se relatando um evento real, único, parte de uma história que segue seu curso linearmente, e que não se repetirá. O início dessa história é relatado no mesmo tom histórico: "No princípio, criou Deus os céus e a terra. A terra, porém, era sem forma e vazia... E disse Deus: Haja luz! E, houve luz. E Deus viu que a luz era boa." (Gên. 1:1-3). É extremamente significativo que, de todos os seres deste mundo, o homem seja o único que tem clara consciência da passagem do tempo. Sabemos que há um hoje, houve um ontem, e haverá um amanhã. Qual seria a finalidade dessa habilidade única?

Provavelmente, a mesma de a Bíblia ter sido escrita em prosa. A Bíblia não é um tratado de teologia sistemática, nem um código de leis ou ética. A Bíblia é o relato de uma sucessão de histórias, que teve um começo, na qual a vida de cada um de nós se insere, e que terá uma consumação. Somos aparelhados e informados para entender que viemos de Alguém, somos alguém, e vamos para esse Alguém!

Concepção do Homem

É desse contexto de oposição ao paganismo da antigüidade que a história bíblica da criação do homem à imagem de Deus recebe seu significado primário. Os mitos pagãos assumiam a existência eterna tanto da divindade quanto da matéria, e assim eram fundamentalmente dualistas. Em contraste, o Gênesis ensina que todas as coisas, visíveis e invisíveis, incluindo o homem, originaram-se por um livre ato criativo de Deus. Afirmar a criação ex nihilo equivale a dizer que só Deus é eterno e auto-suficiente. Implica também dizer que o mundo material e as atividades a ele relacionadas não são intrinsicamente corruptos, como o Gnosticismo ensinava nos primeiros séculos da Era Cristã (Davies. Ibidem, pág. 44), deixando um ranço que ainda impregna muito do cristianismo. O Gênesis insiste em afirmar que Deus criou tudo, e que "viu tudo o que tinha feito, e era muito bom" (Gên. 1:31). Outro ensino claro do Gênesis é que a criação não se confunde com o Criador; Deus não é imanente, mas transcendente; a natureza não está impregnada com a essência divina, como supunha o paganismo da antigüidade, ou como querem o Panteísmo e sua versão mais recente, a Nova Era. Deus – ensina o Gênesis – é transcendente, pessoal e único. Combinadas, a eternidade e a transcendência de Deus implicam no conceito fundamental de que só Deus é auto-suficiente. A Criação, ao contrário, depende dEle, recebe dEle sua existência, e só no relacionamento com Elepode encontrar seu significado, realização e plenitude.

É também no contexto dessa oposição radical e deliberada ao paganismo da antigüidade que o homem é apresentado no Gênesis. No Épico de Gilgamesh – a história babilônica do Dilúvio, anterior aos escritos bíblicos, amostra das crenças da época – o herói humano busca a imortalidade. Embora extremamente difícil, a história sugere ser possível ao homem vir a ser um deus, pois, em sua busca, Gilgamesh aconselha-se com Utnapishtim, um mortal que havia conquistado a imortalidade. No Gênesis, por outro lado, fica claro que o homem não é e não pode ser deus. Sugerir o contrário foi, aliás, a primeira tentação; ceder a ela foi o pecado original (Gên. 3). Sem Deus – ensina o Gênesis – o homem deixa de existir. A busca da auto-suficiência resulta apenas na morte. A realização e felicidade do homem, portanto, não será achada dentro de si mesmo, mas fora, em Deus e em tudo o que foi criado por Deus para o homem.

Segundo o Enuma Elish – obra literária da antiga Babilônia – o homem teria sido criado por Ea, com o sangue de Kingu, um deus morto em combate, para servir os deuses, de modo que estes não precisassem mais trabalhar. O homem aparece no cenário do Universo apenas como uma peça secundária e desprezível, sem dignidade, com valor meramente utilitário, sujeito aos humores e caprichos dos deuses. Nesse contexto, como soa impressivo e contrastante o relato do Gênesis: "E disse Deus: Façamos o homem à Nossa imagem, conforme Nossa semelhança... Assim Deus criou o homem à Sua imagem, à imagem de Deus o criou, macho e fêmea os criou... Formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou-lhe nas narinas o fôlego da vida, e o homem tornou-se alma vivente... então o Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre o homem, e este adormeceu; tomou, então, uma das suas costelas, e fechou a carne em seu lugar. Então da costela que o Senhor Deus tomou do homem, formou a mulher..." Gênesis 1:27; 2:7, 21-22.

Conquanto todas as coisas tenham sido criadas pela palavra de Deus, a humanidade foi criada com Suas próprias mãos. E criada "à imagem de Deus"! O relato bíblico atribui ao homem uma dignidade que impressiona: "Que é o homem para que dele Te lembres? e o filho do homem, para que o visites? Contudo, pouco menor o fizeste do que Deus, e de glória e de honra o coroaste!" (Sal. 8:4-5). Considerando-se que a história da Criação do Gênesis é uma franca oposição ao politeísmo pagão e uma explícita defesa do radical monoteísmo vetero-testamentário, é no mínimo surpreendente que, ao criar Sua própria "imagem", Deus não fez um indivíduo, mas dois! Tudo o mais, ao ser criado, recebeu a aprovação divina: "Viu Deus que era bom... muito bom!" (Gên. 1:10, 12, 18, 21, 25 e 31). Uma única coisa não foi aprovada: "Não é bom que o homem esteja só" (Gên. 2:18). O indivíduo sozinho, isolado, ensina o Gênesis, não é ainda homem, não pode ser "imagem de Deus"! A razão disso, só o Novo Testamento esclarecerá. O único Deus é um ser plural que Se revela na pessoa do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Deus é uma comunhão entre pessoas, e o homem foi criado "à imagem de Deus". O indivíduo, enquanto indivíduo, jamais poderá ser imagem de Deus, porque esta se define na relação entre indivíduos. – Elmer A. Martens. God’s Design: A Focus on Old Testament Theology (Grand Rapids, MI: Baker Book House, 1990), pág. 27.

Segundo o Gênesis, assim fomos criados. O outro é uma extensão de nós próprios. Somos o que somos, mais a família e os amigos que temos, a comunidade em que vivemos. Nossa identidade e realização são definidos por nossos relacionamentos. A qualidade e valor de nosso ser são determinados pela qualidade e valor de nossos relacionamentos. Assim, quando busco meus próprios interesses, desconsiderando os interesses alheios, estou na verdade conspirando contra mim mesmo. Não existe felicidade real à parte da comunhão com Deus e nossos semelhantes, à parte da vida comunitária, à parte dos relacionamentos com indivíduos sadios, equilibrados, bem formados. O individualismo é uma abstração mentirosa. O egocentrismo e o isolamento são suicidas. É por isso que, na Bíblia, todos os pecados são pecados de relacionamento, como também o são todas as virtudes. O pecado original foi o rompimento de relacionamento com Deus, que resultou em rupturas nos relacionamentos entre Adão e Eva, Caim e Abel, o homem e a natureza, eu e você. O plano de salvação de Deus, enunciado em toda a Bíblia, visa a restaurar relacionamentos. Deus quer nos atrair de volta a Si, Deus quer aproximar os homens uns dos outros, como irmãos, ao redor do Pai.

Quando isso acontecer, estará restaurada no homem a "imagem de Deus".

jsilva@igase.com.br


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