É digno de nota o verdadeiro
fascínio que os índios brasileiros têm exercido sobre antropólogos e etnólogos
germânicos, e mesmo sobre o povo comum dos países de fala alemã, desde a divulgação
dos escritos de Hans Staden sobre sua aventura no seio dos Tupinambás no século XVI. Von
Martius em 1863, cerca de quarenta anos após sua viagem pelo Brasil, publicou sua
célebre coleção de glossários das línguas indígenas brasileiras, abrangendo cerca de
uma centena delas. Numerosos outros estudiosos ocuparam-se da pluralidade de línguas
gentílicas faladas no Brasil.
O interesse de Guilherme Stein Jr.
pelos índios, sua língua e seus costumes foi muito grande, e abrangeu não só as tribos
brasileiras como sugere o título de seu livro "O Tupi", mas as demais tribos
existentes nas Américas do Sul, Central e do Norte, em particular incluindo as antigas
civilizações inca, maia e asteca.
A questão indígena no Continente
Americano, desde a época dos descobrimentos, assumiu o caráter de verdadeiras ondas
sucessivas de genocídio, aparentemente tendo em sua raíz a posição de superioridade
racial assumida pelos conquistadores. Buscando justificar essa atitude, numa hipócrita
perspectiva social do darwinismo, dir-se-ia hoje que se tratou da destruição do mais
fraco simplesmente "pela atuação inexorável da lei da seleção natural", que
levou naturalmente também à "sobrevivência do mais forte".
Com raras exceções, a posição
dos estudiosos dos povos americanos originais sempre se prendeu a essa estrutura
conceitual evolucionista, na qual o selvagem é considerado como um ser inferior, em
estágio primitivo de evolução cultural na direção a patamares mais elevados,
supostamente já atingidos pelo assim chamado civilizado.
Opondo-se a essa posição,
Guilherme Stein Jr. desenvolve a tese de que na realidade houve uma involução, e não
uma evolução, na história dos povos indígenas. Nesta sua posição encontra ele o
apoio de algumas autoridades, como von Martius, conforme explicitado em "O
Tupi":
"As opiniões expendidas
acerca de nossos índios, sua origem e seu passado são pela maior parte errôneas. As
idéias que colhemos a tal respeito, de nossos estudos, são acanhadas, e a resultante de
nosso modo vesgo de encarar o homem primitivo. Há todavia honrosas exceções. Martius,
com quem nem sempre podemos concordar nas conclusões que tira de seus estudos e
observações, posto se nos afigure uma autoridade no assunto, como pessoa que observou in
loco, convivendo longamente com os nossos índios, teve a respeito do gentio palavras
que merecem os nossos mais sinceros aplausos, quando disse:
'Muitos desses povos americanos, a
que chamamos selvagens, experimentaram, sem dúvida, uma segunda decadência do seu estado
primitivo, um segundo transvio de sua nobre consciência. Quanto este meu modo de ver
destoa do daqueles que pensam encontrar-se ainda o selvagem no primeiro estágio de uma
idade infantil! Mas é justamente por isso que se torna difícil conservar em mãos os
fios que possam conduzir a um modo de ver mais acertado acerca das condições sociais
primitivas dessas nações. Cada dia que passei na convivência desses selvagens
robusteceu em meu espírito a convicção de que foram outrora totalmente diferentes, e
que, no transcurso dos séculos, foram atingidos por grandes catástrofes que, pouco a
pouco, os reduziram a essa condição de desfibramento e degenerescência. O índio
americano não é um selvagem de origem, e sim um degradado que se asselvajou. Se em
alguns países do grande continente, como no México, existem comunidades do pele
vermelha, que não oferecem o mesmo espetáculo contristador que o selvagem brasileiro e
de outras regiões da América do Sul, nutro também a respeito destes a convicção de
que representam os restos dispersos de um passado glorioso, e que também aqueles não
hão de escapar à sorte de um precoce desaparecimento deste cenário, tão pouco os que
se acham em estado já mais adiantado de degeneração'."
E continua Guilherme Stein Jr.
dando mais algumas importantes informações sobre sua maneira de focalizar o assunto em
questão:
"No estudo cuja
publicação ora encetamos, nos propomos demonstrar o acerto desta opinião de Martius
acerca do gentio americano. Vinte longos anos de pacientes investigações deram em
resultado descobertas das mais importantes, que vêm facilitar grandemente esses estudos
comparativos e dar-nos uma idéia completamente outra acerca do nosso selvagem, sua origem
e seu passado histórico. O que Martius aí exprimiu foi o que ele sentiu e entreviu no
convívio e contato com o índio, mas que ele não pôde demonstrar. Tinha a intuição
nítida do que afirmava; tinha no próprio índio a indicação clara e sugestiva de um
passado nobre e glorioso que o índio conheceu, e que o próprio estado de degradação e
aviltamento em que ora vive ainda não desmentiu de todo. Mas que podemos nós saber
acerca do passado de nosso índio se não deixou monumentos, nem documentos de espécie
alguma, que nos possam informar e instruir? Apenas restam algumas tradições e a língua,
as quais, porém, bem combinadas, uma vez conhecida a sua origem, e graças a uma
comparação cuidadosa, ampla e bem fundada, sem idéias preconcebidas, nos contarão a
verdade, provando-se a fonte mais legítima e mais pura de informações históricas que
podemos almejar. Se, porém, nos 1ançarmos a elas, com nossa opinião já formada acerca
do índio e seu passado, certamente faremos violência a essas testemunhas, obrigando-as a
dizer e afirmar o que é absolutamente inexato".
Estas palavras e transcrições de
Guilherme Stein Jr., da mesma forma que suas observações feitas na introdução de
"O Sábado" sobre a interpretação dos fatos do hexameron, deixam claro
que, embora sem explicitar de forma mais definida, divisava ele claramente a existência
daquilo que Popper veio a definir como estruturas conceituais, na filosofia da
ciência. A par de uma estrutura conceitual evolucionista, uniformista por excelência,
dentro da qual a ciência desde Lyell e Darwin tem pretendido enquadrar os fatos
observáveis na natureza, quer no universo físico, quer na biologia, ou ainda na vida
social dos povos, situa-se no outro extremo a estrutura conceitual criacionista, admitindo
episódios catastrofistas, a qual, após cerca de um século e meio, como mencionado,
volta a ser aceita por crescente número de cientistas e estudiosos. Guilherme Stein Jr.
no Brasil aparentemente foi o primeiro a perceber que a apreciação dos mesmos fatos sob
as duas estruturas conceituais distintas levaria a conclusões também distintas, não
obstante o rigor da metodologia científica que fosse utilizada em cada caso.
Fica claro, da citação acima, que
a metodologia adotada por Guilherme Stein Jr., dentro da estrutura conceitual criacionista
por ele aceita, é a da comparação cuidadosa, ampla e bem fundada das línguas e
tradições dos povos, procurando desta forma evidências para a defesa de sua tese
monogenista. Em seus estudos, de fato, língua e religião são indissolúveis, como
transparece dos subtítulos de "O Tupi", conforme já explicitado: "Origem
comum das línguas e das religiões" e "O Tupi, donde veio sua língua e
sua primitiva religião".
No decorrer da 1eitura de "O
Tupi" depreende-se que Guilherme Stein Jr. chegou realmente a dominar a língua
suméria, o que não deixa de ser surpreendente em face das circunstâncias de então.
Pelas informações recolhidas de pessoas da família, buscou ele contato com lingüistas
de projeção em nosso meio, para a discussão e a análise de suas teses, não tendo,
porém, encontrado alguém que dominasse suficientemente o Sumério para tal propósito.
"O mundo físico, o cosmos,
foi o primeiro livro de leitura do homem, no qual este aprendeu a língua, o primeiro
livro no qual apontou suas idéias religiosas, que assim lia e relia quotidianamente,
porque a língua nasceu e cresceu com a religião, com a qual está intimamente
identificada, desde a origem. É o desconhecimento deste fato que impediu que chegássemos
mais cedo à demonstração de sua origem comum. ... É a essa transparência, porém,
muitas vezes bem visível ainda, do fundo concreto, isto é, da página objetiva e
idealmente escrita das idéias religiosas do homem primitivo, que devemos o poder chegar
hoje, através de uma leitura correta dessa página a essa demonstração almejada. Não
fosse isto, todo o nosso esforço seria baldado".
"É certo, é natural mesmo,
que em virtude desse modo de representar e de expressar objetivamente as idéias
religiosas, o homem acabasse, não raro, tomando a figura, a representação concreta, o
símbolo, pelo próprio objeto dessas mesmas idéias, como sóe acontecer ainda hoje, no
próprio Século das Luzes. A mesma linguagem, dada a sua origem e modo como foi formada,
e que, como disse muito bem Max Müller, é responsável por muita coisa absurda que se
encontra nas crenças religiosas, devia tornar-se cúmplice de tais desvarios. Pretender,
porém, que a idéia religiosa nasceu desse fundo físico, cifrando-se originariamente num
culto desinteligente e estúpido das forças naturais, do qual gradualmente evoluiu para
uma concepção mais elevada, é o erro mais grosseiro que se tem cometido em ciência
religiosa moderna".
Mais uma vez se observa a
oposição de Guilherme Stein Jr. à estrutura conceitual evolucionista, dentro da qual se
insere a idéia de que os conceitos religiosos do homem foram evoluindo a partir de sua
observação das forças da natureza. Observa-se também a sua convicção de poder chegar
(ou ter já podido chegar) à leitura correta "dessa página objetiva e idealmente
escrita das idéias religiosas do homem primitivo", no mundo físico. |