Alguns
fenômenos geológicos, observados atualmente,
podem resultar em desastres naturais, como os terremotos
(geralmente associados à movimentação
das placas tectônicas), os grandes deslizamentos de
encostas (fluxos gravitacionais), as erupções
vulcânicas, etc. Em muitas ocasiões, esses
eventos catastróficos desencadeiam determinados processos
(segregação e estratificação
espontâneas, fluxos de lava basáltica, etc.)
que são passíveis de correlação
com vestígios dos mesmos fenômenos desenvolvidos,
muito mais intensamente, no passado.
A
geologia histórica parece identificar-se muito melhor
com os grandes desastres naturais, que se desenvolvem muito
rapidamente, do que com os processos geológicos
ordinários (não catastróficos). Por outro
lado, os desastres naturais atuais são pontuais no
tempo e no espaço; já aqueles "desastres
naturais" pretéritos se manifestaram globalmente
e de maneira ininterrupta, durante um curto intervalo de tempo.
Identificam-se
ainda, analisando criteriosamente as feições
estruturais e texturais dos estratos sedimentares, evidências
de outros eventos geológicos, não observados
no presente, que certamente teriam provocado drásticas
transformações na superfície da Terra,
como: impactos de gigantescos meteoritos, extinção
em massa (de plantas e animais) e processos de erosão
e sedimentação abrangendo áreas imensas.
Esses
eventos cataclísmicos ocorreram, no passado, isoladamente
ou de maneira interligada (um fenômeno desencadeando
outro)? É possível estimar, com razoável
aproximação, a duração dos correspondentes
fenômenos? As interrogações apresentadas
merecem uma consideração séria e objetiva,
pois se referem ao período mais conturbado da breve
história da Terra.
No
Estado de São Paulo, como em quase todo vasto território
nacional, o clima subtropical a tropical favorece a ação
intensa do intemperismo que tende a transformar materiais
rochosos em solo. Assim, o geólogo brasileiro geralmente
se defronta com a escassez de afloramentos onde se possa encontrar
rocha sã ou inalterada, com suas características
estruturais e texturais preservadas.
Nos
canteiros de construção de grandes usinas hidroelétricas
na região Sul e Sudeste do país, especialmente
no Estado de São Paulo, entre as décadas de
60 e 80, viabilizou-se o exame em detalhe de milhares de metros
de testemunhos de sondagem, bem como o contato direto com
extensas superfícies de rocha basáltica (rocha
de origem vulcânica) inalterada, nas escavações
necessárias à implantação de diversas
estruturas de barragem. Na ocasião, vários geólogos
inclusive este autor foram beneficiados com a rara oportunidade
de estudar, minuciosamente, amplas exposições
dos derrames basálticos da Formação Serra
Geral (Bacia Sedimentar do Paraná).
Pesquisas
científicas envolvendo as rochas basálticas,
desenvolvidas pelo mesmo autor, junto à Universidade
de São Paulo - USP durante 12 anos, possibilitaram-no
acumular um significativo acervo de dados e chegar a conclusões
surpreendentes. A título de exemplo, citaremos neste
preâmbulo apenas a seguinte:
"O
extravasamento dos derrames basálticos da Bacia do
Paraná foi rápido e sucessivo.
Os derrames encontravam-se em franco processo de resfriamento,
ainda na fase líquida, quando já haviam sido
sobrepostos por vários outros subseqüentes.
É exatamente este o motivo da aparência de
corpos intrusivos, apresentada pela maioria dos derrames
Serra Geral".
Esta
experiência pessoal harmoniza-se perfeitamente com outras
realidades geológicas:
- Os
extensos e espessos estratos sedimentares, cujos contatos
(plano-paralelos) apresentam-se sem indícios de erosão
ou de ação intempérica (evidências
de rápida superposição);
- Dados
experimentais, facilmente reproduzíveis, evidenciando
o desenvolvimento espontâneo ou simultâneo das
partes ("lâminas ou camadas") de determinados
pacotes sedimentares estratificados.
- A
possibilidade de se interligar, coerentemente, eventos geológicos
globais e catastróficos (impactos de meteoritos,
extinção em massa, etc.).
- Estas
e outras evidências nos estimulam a elaborar um modelo
alternativo de coluna geológica, onde as longas eras
(Paleozóico, Mesozóico e Cenozóico)
do éon Fanerozóico, estabelecidas pela Geocronologia
Padrão, são confrontadas com as divisões
de um novo paradigma geocronológico.
O
modelo proposto não pretende questionar a datação
radiométrica utilizada para as rochas Pré-Cambrianas.
Pergunta-se, entretanto: as divisões do Fanerozóico
podem ser correlacionadas, com precisão, a idades radiométricas
ou absolutas? Sobre que fundamento se construiu a escala de
tempo fanerozóica?
"A
escala de tempo fanerozóica é baseada em numerosas
seções de rochas sedimentares que foram correlacionadas
em âmbito intercontinental por meio de fósseis"
(EICHER, 1982).
Uma
declaração ainda mais comprometedora é
apresentada pelo mesmo autor, justificando sua tentativa de
apontar um outro índice paleontológico, mais
preciso, do tempo geológico:
"Persistem
ainda suspeitas de que, devido a alguma fonte insuspeita
de erro sistemático, o calendário radiométrico
inteiro, da base ao topo, poderia estar drasticamente errado"
(EICHER, 1982).
Será
que as técnicas mais modernas de datação
radiométrica, desenvolvidas nos últimos anos,
aplicadas às rochas sedimentares, estabelecem valores
absolutos e precisos para toda a escala de tempo fanerozóica,
independentemente da datação bioestratigráfica
(baseada na disposição, relativamente ordenada,
dos fósseis no registro geológico)? Na realidade,
a imprecisão da datação é um dos
aspectos mais frustrantes da geologia tradicional.
Sendo
assim, cremos haver espaço para a construção
de um modelo de coluna geológica que esteja fundamentado
não em métodos de datação, mas
sim, nas feições litológicas, estruturais
e outros dados geológicos de campo, passíveis
de serem identificados e interpretados por qualquer pesquisador
isento. O estudo focalizará, preferencialmente, o período
compreendido pelo Fanerozóico (mais especificamente,
do Cambriano ao Terciário), durante o qual formaram-se
os extensos estratos sedimentares com conteúdo fossilífero
significativo.
Convidamos
então o leitor, independentemente de sua cosmovisão,
para que analise imparcialmente o texto do livro a fim de
que, juntos, interpretemos os fatos. Em uma segunda etapa,
procuraremos associar, coerentemente, esses mesmos fatos à
hipótese mais consistente. Finalmente, buscaremos respostas
convincentes a algumas importantes indagações
relativas à história de nosso planeta.
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