Tempo Bom

 

Ocorre que esse tipo de situação é uma feição climatológica de inverno, quando observamos os dias característicos de céu azul, mas nos quais o sol se encontra baixo no horizonte resultando em impacto moderado na temperatura. Já no caso presente, a circulação típica de inverno encontrou o sol a pino, resultando em excesso de radiação solar à superfície e pouca chuva.

 

Mas não estamos sós. Ingleses experimentam inundações generalizadas. Norte-americanos enfrentam ondas de frio polar. Australianos convivem com intensa onda de calor; ao mesmo tempo! Coincidência, diriam uns. Orquestração da natureza contra os abusos humanos em relação ao planeta, diriam outros.

 

O fato é que, gostando ou não, a frequência, intensidade e simultaneidade de eventos climáticos extremos vêm aumentando década após década mundialmente e no Brasil. E é justamente o despreparo para tal nova conjuntura do sistema climático global que nos aponta o relatório do pesquisador inglês sir Nicholas Stern como a maior e mais premente ameaça relacionada às mudanças ambientais globais.

 

No passado não muito distante, poderíamos encolher os ombros, escondendo-nos na desculpa de que "nós não sabíamos". Hoje, não mais. Sabemos que as alterações da composição atmosférica induzidas pelo consumo de combustíveis fósseis e desflorestamento tropical em grande escala são em parte responsáveis pelo aumento de eventos climáticos extremos.

 

Sabemos também que tais eventos, como os desse verão, constituem somente o tira-gosto de uma nova realidade do clima que se avizinha. Ao mesmo tempo, também aprendemos a partir de pesquisas minuciosas das relações entre as florestas tropicais do Brasil e a atmosfera que as árvores fazem parte do processo de geração de chuva, contribuindo para a estabilização do clima.

 

Assim, enquanto não podemos impedir os grandes movimentos da atmosfera global, como esse que ocasionou o longo período de estiagem sobre o Sudeste do Brasil, podemos e devemos manter os maciços florestais remanescentes não somente na Amazônia, mas também e principalmente os cinturões verdes ao redor das megacidades brasileiras. Com isso, não estaremos imunes aos extremos climáticos futuros, mas teremos contribuído para atenuar seus efeitos em nossas cidades.

 

 

Paulo Nobre, 57, climatologista, é pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.

Marcelo Seluchi, 51, é pesquisador titular do Centro Monitoramento de Alerta de Desastres Naturais, ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

(Folha de S.Paulo)

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/158028-tempo-bom.shtml

 

Publicado em JC e-mail 4919, de 25 de março de 2014

 

COMENTÁRIO INTRODUTÓRIO (da SCB)

 

Mais um artigo em complementação ao publicado anteriormente, referente ao Painel sobre Mudanças Climáticas, que prevê inundações, seca, fome e problemas de segurança se não forem reduzidas emissões de CO2.

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